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Etomidato ou cetamina para intubação em sequência rápida de pacientes críticos?

O que o maior ensaio pragmático até hoje sugere sobre mortalidade e estabilidade hemodinâmica na indução para intubação em adultos criticamente enfermos.

Jonas Santana

Jonas Santana

Verificado

Anestesiologista TSA · Especialista em Clínica Médica

Etomidato ou cetamina para intubação em sequência rápida de pacientes críticos?

O que o maior ensaio pragmático até hoje sugere sobre mortalidade e estabilidade hemodinâmica na indução para intubação em adultos criticamente enfermos.

Key takeaways#

Pergunta clínica e mortalidade

  • A grande pergunta clínica era direta: em adultos criticamente enfermos submetidos à intubação não programada, cetamina reduz mortalidade em comparação ao etomidato?
  • No ensaio RSI (NEJM, 9 de dezembro de 2025; n = 2365), não houve diferença estatisticamente significativa de mortalidade até o dia 28 entre cetamina e etomidato.

Hemodinâmica durante a intubação

  • O achado que muda a conversa foi hemodinâmico: colapso cardiovascular durante a intubação foi mais frequente com cetamina (diferença absoluta de +5,1 pontos percentuais).
  • Em subgrupos de maior risco (sepse/choque séptico; APACHE II ≥ 20), a diferença de colapso cardiovascular foi ainda mais pronunciada, novamente favorecendo etomidato.

Supressão adrenal e leitura do risco

  • A supressão adrenal transitória do etomidato continua sendo um fenômeno fisiológico relevante, mas não se traduziu em aumento de mortalidade versus cetamina neste cenário de dose única para indução.

Onde a cetamina segue útil

  • Cetamina segue sendo extremamente útil em contextos específicos (ex.: broncoespasmo intenso, status asmático, situações em que se deseja alguma preservação de drive respiratório antes da intubação), mas o estudo sinaliza que não foi "mais estável" em pressão arterial no conjunto da amostra.

Por que essa escolha sempre foi controversa?#

Por muitos anos, a escolha do agente de indução para sequência rápida de intubação (RSI) em pacientes críticos foi controversa.

De um lado, o etomidato: hemodinamicamente "amigável", mas acusado de suprimir o eixo adrenal e, potencialmente, aumentar mortalidade, especialmente na sepse.

Do outro, a cetamina: tida como mais estável em termos de pressão arterial, com ação simpaticomimética, e vista por muitos como "mais segura" em pacientes graves.

Estudos observacionais e ensaios pequenos apontavam resultados conflitantes. Sociedades e guidelines de alguns países chegaram a desencorajar o etomidato por preocupação com supressão adrenal.

Faltava um estudo grande, pragmático, desenhado para a pergunta que importa à beira do leito: em adultos criticamente enfermos submetidos à intubação de urgência, usar cetamina em vez de etomidato reduz mortalidade?

É exatamente isso que o Randomized Trial of Sedative Choice for Intubation (RSI), recém-publicado no New England Journal of Medicine em 9 de dezembro de 2025, se propôs a responder.

O estudo RSI em 1 minuto#

ItemDetalhes
DesenhoEnsaio randomizado, multicêntrico, pragmático e paralelo
Cenários14 unidades (6 departamentos de emergência e 8 UTIs), em 6 centros médicos nos Estados Unidos
População2365 adultos criticamente enfermos submetidos à intubação de urgência
ComparaçãoCetamina IV vs etomidato IV para indução
PrimárioMorte intra-hospitalar até o dia 28 (por qualquer causa)
Secundário principalColapso cardiovascular durante a intubação
Data e periódicoNEJM, 9 de dezembro de 2025

O estudo RSI: como foi desenhado?#

O RSI é um ensaio randomizado, multicêntrico, pragmático e paralelo, conduzido em:

  • 14 unidades (6 departamentos de emergência e 8 UTIs),
  • em 6 centros médicos nos Estados Unidos,
  • incluindo 2365 adultos criticamente enfermos submetidos à intubação de urgência.

Quem entrou no estudo?

Inclusão

  • ≥18 anos
  • Pacientes criticamente enfermos
  • Necessidade de intubação traqueal com uso de medicação de indução, em UTI ou emergência.

Exclusão

  • Gravidez
  • Presos
  • Diagnóstico primário de trauma
  • "Crash intubation" sem tempo hábil para randomização
  • Situações em que o médico julgava que um dos fármacos era claramente necessário ou contraindicado.

Randomização e intervenção

Os pacientes foram randomizados 1:1 para:

Grupo cetamina

  • Cetamina IV para indução de anestesia.
  • Nomograma com dose "cheia" 2,0 mg/kg, intermediária 1,5 mg/kg, ou reduzida 1,0 mg/kg, a critério do médico.

Grupo etomidato

  • Etomidato IV para indução.
  • Nomograma com dose "cheia" 0,3 mg/kg, intermediária 0,25 mg/kg, ou reduzida 0,2 mg/kg.

A aderência foi excelente: 99,2% dos pacientes do grupo cetamina realmente receberam cetamina e 99,6% do grupo etomidato recebeu etomidato.

Todo o restante da conduta (vasopressores, fluido, escolha do bloqueador neuromuscular, sedação pós-intubação, corticoide etc.) ficou a critério da equipe assistente, espelhando a prática real.

Desfechos: o que o estudo mediu#

Desfecho primário

  • Morte intra-hospitalar até o dia 28 (por qualquer causa).

Desfecho secundário principal

  • Colapso cardiovascular durante a intubação, definido como pelo menos um dos seguintes entre indução e 2 min após a intubação:

    • PAS < 65 mmHg
    • necessidade de introdução ou aumento de vasopressor
    • parada cardíaca

Exploratório

  • Pressão arterial mais baixa durante o procedimento
  • necessidade de vasopressor
  • dessaturação
  • sucesso na primeira tentativa
  • tempo até intubação
  • dias livres de ventilador, vasopressor e UTI

O estudo foi adequadamente dimensionado para detectar uma diferença absoluta de cerca de 5 pontos percentuais em mortalidade, com poder de 80% e erro alfa de 5%.

O que o RSI encontrou?#

Mortalidade: empate (e isso é importante)

Morte intra-hospitalar até o dia 28:

  • Cetamina: 28,1% (330/1173)
  • Etomidato: 29,1% (345/1186)
  • Diferença de risco ajustada: –0,8 ponto percentual (IC 95% –4,5 a 2,9; p = 0,65)

Não houve diferença estatisticamente significativa de mortalidade entre os dois fármacos.

Todas as análises de subgrupos (incluindo sepse/choque séptico) e modelos de risco individual chegaram à mesma conclusão: nem cetamina, nem etomidato se mostrou superior em mortalidade.

Hemodinâmica periprocedimento: o achado que surpreendeu muita gente

Colapso cardiovascular durante a intubação

  • Cetamina: 22,1% (260/1176)
  • Etomidato: 17,0% (202/1189)
  • Diferença absoluta: +5,1 pontos percentuais a favor do etomidato.

Em subgrupos de maior risco, a diferença foi ainda mais pronunciada:

  • Sepse/choque séptico: colapso em 30,6% (cetamina) vs 20,9% (etomidato).
  • APACHE II ≥ 20: 31,4% (cetamina) vs 20,7% (etomidato).

Outros achados hemodinâmicos

  • PAS mais baixa durante o procedimento foi, em mediana, 6 mmHg menor no grupo cetamina (112 vs 118 mmHg).

  • PAS < 80 mmHg durante a intubação:

    • Cetamina: 14,4%
    • Etomidato: 10,6%
  • Queda de PAS > 30 mmHg:

    • Cetamina: 23,9%
    • Etomidato: 14,7%

Além disso, um desfecho de segurança pós-hoc mostrou mais episódios de taquicardia ventricular com cetamina (1,0% vs 0,2%).

Outros desfechos clínicos: sem diferença relevante

  • Dias livres de ventilador, vasopressor e UTI foram semelhantes entre os grupos.
  • Aos 28 dias, não houve sinais de benefício funcional ou de tempo de suporte em favor de nenhum dos dois fármacos.

Resultados em tabela para leitura rápida#

DesfechoCetaminaEtomidatoDiferença / Observação
Morte intra-hospitalar até o dia 2828,1% (330/1173)29,1% (345/1186)Diferença de risco ajustada: –0,8 ponto percentual (IC 95% –4,5 a 2,9; p = 0,65)
Colapso cardiovascular durante a intubação22,1% (260/1176)17,0% (202/1189)Diferença absoluta: +5,1 pontos percentuais a favor do etomidato
Sepse/choque séptico (colapso)30,6%20,9%Diferença mais pronunciada, favorecendo etomidato
APACHE II ≥ 20 (colapso)31,4%20,7%Diferença mais pronunciada, favorecendo etomidato
Mediana da PAS mais baixa durante o procedimento112 mmHg118 mmHg6 mmHg menor no grupo cetamina
PAS < 80 mmHg durante a intubação14,4%10,6%Maior frequência com cetamina
Queda de PAS > 30 mmHg23,9%14,7%Maior frequência com cetamina
Taquicardia ventricular (pós-hoc)1,0%0,2%Mais episódios com cetamina

Quão robusto é esse estudo?#

Pontos que reforçam a confiabilidade

  • N = 2365, praticamente o mesmo número somado de todos os ensaios anteriores sobre o tema.
  • Multicêntrico, com diferentes perfis de pacientes (ED e UTI).
  • Alta aderência ao fármaco sorteado (>99%).
  • Baixíssima perda de follow-up para o desfecho primário.
  • População gravemente doente: quase 30% de mortalidade em 28 dias, >40% com sepse/choque séptico e ~22% em vasopressor pré-intubação.

Limitações

  • Estudo não cego (poderia influenciar condutas e avaliação de alguns desfechos hemodinâmicos).
  • Excluiu trauma, então cuidado ao extrapolar para politrauma.
  • Não responde nada sobre comparação com propofol, benzodiazepínicos, barbitúricos.

Mesmo assim, para anestesiologia e medicina intensiva, é um estudo forte o suficiente para influenciar prática.

O que muda para o anestesiologista na prática diária?#

No contexto de intubação de urgência em adultos criticamente enfermos, a troca de etomidato por cetamina não reduziu mortalidade.

Isso enfraquece o argumento de que "não posso usar etomidato porque ele aumenta mortalidade", pelo menos nesse cenário específico (dose única para indução em RSI).

E aqui está o ponto-chave: a cetamina não foi mais "hemodinamicamente estável".

Como isso pode mudar sua escolha de agente indutor?

Implicações práticas, do jeito que importa na rotina:

  • Em paciente séptico grave, em uso de vasopressor, hemodinamicamente instável:

    • este estudo dá um sinal forte a favor de considerar etomidato como opção de primeira linha para indução,
    • com menor risco de colapso hemodinâmico durante a intubação, mas ainda com necessidade de estar preparado para instabilidade hemodinâmica (20,9%).
  • A supressão adrenal transitória por bolus de etomidato continua existindo como fenômeno fisiológico, mas não se traduziu em aumento de mortalidade em comparação à cetamina.

  • A cetamina continua sendo extremamente útil, por exemplo:

    • em pacientes com broncoespasmo intenso,
    • status asmático,
    • situações em que se deseja alguma preservação de drive respiratório antes da intubação (indução em sequência lenta),
    • e também em pacientes críticos, sabendo que a chance de comprometimento hemodinâmico pode ocorrer com maior frequência, apesar do racional fisiológico.

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Jonas Santana

Jonas Santana

Médico Anestesiologista com Título Superior em Anestesiologia (TSA) pela Sociedade Brasileira de Anestesiologia. Especialista em Clínica Médica com atuação em Terapia Intensiva. Diretor do Time de Curadoria do AnestCopilot.

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