Em paciente bem selecionado e dentro da dose/indicação em rótulo, o HES 6% volta a ser uma ferramenta possível de reposição volêmica intraoperatória, não um "vilão absoluto".
Key takeaways#
Por que o tema ficou "sensível"
- O Hidroxietilamido (HES) 6% saiu do centro da fluidoterapia depois de estudos em sepse/UTI com altos volumes por vários dias (muitas vezes com formulações antigas), associados a LRA, mais TSR e sinais de pior desfecho.
O que a EMA apontou como lacuna
- A EMA restringiu o uso em pacientes críticos e sépticos e apontou uma lacuna: faltavam dados robustos e de longo prazo em pacientes cirúrgicos.
O que o PHOENICS foi desenhado para responder
- O PHOENICS foi desenhado com a EMA para responder: em cirurgia abdominal maior eletiva, ASA II–III, sem sepse e sem doença renal relevante, o HES 6% (130/0,4) em solução balanceada é tão seguro quanto cristalóide?
O que o estudo encontrou e como isso se traduz
- No PHOENICS, o HES foi não inferior ao cristalóide para função renal, complicações maiores + mortalidade até 90 dias e mortalidade até 1 ano.
- O HES se associou a menor sobrecarga hídrica e, em análise pós hoc, menor necessidade de vasopressor/inotrópico, sem sinal robusto de piora renal quando usado conforme a bula (até 30 mL/kg/24h).
- Moral prática: em paciente bem selecionado e dentro da dose/indicação em rótulo, o HES 6% volta a ser uma ferramenta possível de reposição volêmica intraoperatória, não um "vilão absoluto".
Insights sobre o estudo PHOENICS#
Por que o HES 6% virou um tema "sensível" na anestesia?#
Por muitos anos, o hidroxietilamido (HES) 6% foi uma opção de reposição volêmica intraoperatória: efeito expansor rápido, menor volume total infundido e boa estabilidade hemodinâmica.
Isso mudou quando surgiram os grandes estudos em pacientes sépticos, usando volumes altos de HES por vários dias, muitas vezes com formulações mais antigas, HES 10% (200/0.5) em soro fisiológico.
Esses trabalhos mostraram:
- Maior incidência de lesão renal aguda (LRA)
- Aumento da necessidade de terapia renal substitutiva
- Sinais de pior desfecho em UTI
Com base nisso, a EMA (European Medicines Agency) restringiu fortemente o uso de HES em pacientes críticos e sépticos, e apontou uma lacuna importante: faltavam dados robustos e de longo prazo em pacientes cirúrgicos.
Meta-análises mais recentes em contexto cirúrgico sugeriam que o HES 6% (130/0,4), usado intraoperatoriamente, não aumentava LRA nem mortalidade em comparação a cristalóides, mas a maioria dos estudos eram pequenos e subdimensionados. Faltava um ensaio clínico que pudesse realmente resolver a dúvida. É exatamente aí que entra o PHOENICS.
O que foi o PHOENICS?#
O estudo PHOENICS ("Prospective, randomised, controlled, double-blind, multicenter, multinational study on the safety and efficacy of 6% HES solution versus an electrolyte solution in elective abdominal surgery") foi um ensaio clínico fase IV, desenhado em conjunto com a EMA, para responder à pergunta:
Usar HES 6% (130/0.4) no perioperatório de cirurgia abdominal maior, em pacientes sem sepse nem doença renal, é tão seguro quanto usar apenas cristalóide?
PHOENICS: desenho do estudo#
| Item | Descrição |
|---|---|
| Tipo | randomizado, duplo-cego, controlado, multicêntrico |
| Centros | 53 hospitais em 10 países europeus |
| Randomizados | 2289 pacientes |
| Pacientes tratados | 1958 pacientes (977 HES, 981 cristalóide) |
| Faixa etária | 40–85 anos, ASA II–III |
| Cirurgia | eletiva abdominal com expectativa de perda sanguínea ≥ 500 mL |
| Exclusões importantes | sepse, queimados, LRA prévia ou doença renal crônica relevante, insuficiência cardíaca grave, coagulopatia importante, TCE, pacientes criticamente enfermos. |
Intervenção e comparador#
Grupo HES
- HES 6% (130/0,4) em solução balanceada (Volulyte), até 30 mL/kg nas primeiras 24 horas (principalmente intraoperatório).
Grupo controle
- Mesma solução eletrolítica balanceada, porém sem amido (cristalóide puro).
O que foi permitido em ambos os grupos
- Todos podiam receber cristalóides "de manutenção" conforme rotina local.
Como a reposição volêmica foi guiada
- A reposição volêmica foi guiada por pressão arterial média (PAM) e em parte dos casos, parâmetros hemodinâmicos avançados (PPV, SV, SVV etc.).
Robustez metodológica#
O PHOENICS foi descrito como:
- Maior estudo já realizado, randomizado e duplo-cego, comparando HES vs cristalóide em cirurgia maior.
- Desfechos renais avaliados com cistatina C (eGFR CKD-EPI), dosada em laboratório central.
- Seguimento até 90 dias para complicações maiores e 1 ano para mortalidade e função renal (RRT).
- Análise estatística pré-especificada, sem análises interinas que mudassem o tamanho amostral.
- Monitorização por Data Safety Monitoring Board independente.
Em termos de desenho e tamanho, é um estudo "peso-pesado" para responder a questão de segurança renal do HES no contexto cirúrgico.
Principais resultados: o que o PHOENICS encontrou?#
1) Função renal no pós-operatório precoce#
Desfecho primário
Mudança da eGFR (baseada em cistatina C) do pré-operatório até o menor valor nos primeiros 3 dias pós-operatórios.
- HES: queda média de –3,4 ± 17,7 mL/min/1,73m²
- Cristalóide: queda média de –1,0 ± 17,1 mL/min/1,73m²
O estudo foi desenhado para testar não inferioridade com margem de 8,1 mL/min/1,73m² e o HES foi não inferior ao cristalóide (p < 0,001 para não inferioridade).
Outros achados renais no estudo
-
Curvas de creatinina e de eGFR (cistatina C) praticamente sobrepostas entre os grupos até o dia 90.
-
Classificação de LRA pelos critérios RIFLE/AKIN semelhante entre grupos.
-
Necessidade de terapia renal substitutiva (RRT) muito baixa e sem diferença:
- Pós-operatório inicial: 0,9% (HES) vs 1,0% (cristalóide)
- Até 1 ano: 1,0% vs 1,3%
Em resumo, o texto conclui: nenhum sinal de toxicidade renal atribuível ao HES dentro do uso conforme a bula.
2) Complicações maiores e mortalidade#
Desfecho secundário principal
Composto de mortalidade + complicações pós-operatórias maiores até o dia 90.
- Ocorreu em 35% dos pacientes em ambos os grupos.
- Diferença de risco: 0,63% (IC 95% –3,83 a 5,09) e não inferioridade confirmada.
Mortalidade
-
Até 90 dias: 3% em cada grupo.
-
Até 1 ano:
- 8,6% no grupo HES
- 10,1% no grupo cristalóide
- Sem diferença estatisticamente significativa.
Novamente, o texto destaca: nenhum sinal de aumento de mortalidade com HES.
3) Hemodinâmica, balanço hídrico e vasopressores#
Entre indução anestésica e a manhã do primeiro dia pós-operatório:
Volume total de fluidos
- HES: 4,8 ± 2,6 L
- Cristalóide: 5,1 ± 2,7 L
Débito urinário
- Semelhante em ambos os grupos (~2,6 L).
Balanço hídrico líquido
- HES: +0,6 ± 2,9 L
- Cristalóide: +1,2 ± 2,7 L
- Interpretação do texto: HES associado a menor sobrecarga líquida.
Estabilidade hemodinâmica
- Queda de PAM menor com HES (–14 ± 18 mmHg) do que com cristalóide (–16 ± 19 mmHg).
Em análise pós hoc, menos pacientes precisaram de vasopressores/inotrópicos no grupo HES:
- 26% vs 35% (p < 0,0001).
O texto resume esta seção como: HES 6% (130/0,4) entregou melhor suporte hemodinâmico com menos volume e menos vasopressor, sem pagar o preço de piora renal.
4) Segurança global e coagulação#
- Taxa de eventos adversos semelhante (≈71–72% em ambos, como esperado em cirurgia maior).
- Eventos adversos graves: ~30% em cada grupo.
- Reações adversas relacionadas à droga: 5% em ambos; o evento mais frequente foi LRA, 4% em cada grupo.
- Não houve sinal robusto de maior sangramento ou coagulopatia clinicamente relevante com o uso de HES 130/0.4 6% nas doses estudadas.
Tabela de resultados: HES vs cristalóide (valores do PHOENICS)#
| Domínio | HES | Cristalóide | Leitura do estudo (como descrita no texto) |
|---|---|---|---|
| Desfecho primário renal (queda média eGFR por cistatina C) | –3,4 ± 17,7 mL/min/1,73m² | –1,0 ± 17,1 mL/min/1,73m² | não inferioridade com margem 8,1 mL/min/1,73m²; p < 0,001 para não inferioridade |
| RRT pós-operatório inicial | 0,9% | 1,0% | sem diferença |
| RRT até 1 ano | 1,0% | 1,3% | sem diferença |
| Composto mortalidade + complicações maiores até 90 dias | 35% | 35% | diferença de risco 0,63% (IC 95% –3,83 a 5,09); não inferioridade confirmada |
| Mortalidade até 90 dias | 3% | 3% | sem aumento de mortalidade com HES |
| Mortalidade até 1 ano | 8,6% | 10,1% | sem diferença estatisticamente significativa |
| Volume total de fluidos (indução até manhã do D1 pós-op) | 4,8 ± 2,6 L | 5,1 ± 2,7 L | menor volume com HES |
| Débito urinário | ~2,6 L | ~2,6 L | semelhante |
| Balanço hídrico líquido | +0,6 ± 2,9 L | +1,2 ± 2,7 L | menor sobrecarga hídrica com HES |
| Queda de PAM | –14 ± 18 mmHg | –16 ± 19 mmHg | queda menor com HES |
| Vasopressores/inotrópicos (pós hoc) | 26% | 35% | menos necessidade no grupo HES; p < 0,0001 |
| Eventos adversos | ≈71–72% | ≈71–72% | semelhante |
| Eventos adversos graves | ~30% | ~30% | semelhante |
| Reações adversas relacionadas à droga | 5% | 5% | semelhante; LRA 4% em cada grupo |
O que isso muda para o anestesiologista na prática?#
Em que paciente o HES 6% parece uma opção segura?#
Com base no PHOENICS, o perfil de paciente em que o HES 6% (130/0.4) pode ser considerado, quando usado de acordo com a bula, é:
- Cirurgia eletiva abdominal de grande porte
- ASA II–III
- Sem sepse, choque séptico ou necessidade de UTI prévia
- Sem LRA prévia ou doença renal avançada
- Sem contraindicações formais ao HES (queimaduras extensas, TCE, coagulopatia grave etc.)
- Perda sanguínea moderada/alta, com necessidade de reposição volêmica rápida.
Para esse grupo, o texto destaca:
- Função renal: HES 6% (130/0,4) é não inferior ao cristalóide nos desfechos renais de curto e longo prazo.
- Desfechos clínicos maiores (complicações + mortalidade): também não inferior.
- Hemodinâmica: potencialmente mais estável, com menos necessidade de vasopressores e menor balanço hídrico positivo.
Como usar na vida real?#
Pontos práticos
-
Respeite a bula:
- Dose máxima 30 mL/kg nas primeiras 24 h
- Preferencialmente concentrado no intraoperatório.
-
Integre o HES a uma estratégia individualizada de fluidoterapia, idealmente guiada por parâmetros dinâmicos (PPV, SVV, SV e DC) quando disponíveis.
-
Usando HES para reposição volêmica rápida em episódios de hipotensão associados a hipovolemia, não como manutenção.
Onde não usar HES (como descrito no texto)
- Sepse ou choque séptico
- Pacientes criticamente enfermos em UTI
- Doença renal moderada/grave ou pacientes em TSR
- Queimados, TCE, sangramento intracraniano.
Checklist rápido: quando considerar e quando evitar HES 6%#
| Situação | O que o texto descreve |
|---|---|
| Quando considerar | Cirurgia eletiva abdominal de grande porte; ASA II–III; sem sepse/choque séptico; sem LRA prévia ou doença renal avançada; sem contraindicações formais (queimaduras extensas, TCE, coagulopatia grave etc.); perda sanguínea moderada/alta, com necessidade de reposição volêmica rápida. |
| Como limitar o uso | Respeitar 30 mL/kg nas primeiras 24 h, preferencialmente concentrado no intraoperatório. |
| Como integrar na estratégia | Estratégia individualizada de fluidoterapia, idealmente guiada por parâmetros dinâmicos (PPV, SVV, SV e DC) quando disponíveis. |
| O que evitar | Sepse/choque séptico; paciente criticamente enfermo em UTI; doença renal moderada/grave ou TSR; queimados, TCE, sangramento intracraniano. |
| O que não fazer | Usar HES como manutenção. |
Conclusão#
Concluindo, para o anestesiologista o HES 6% (130/0,4) volta a ser, em pacientes bem selecionados e dentro da dose/indicação em rótulo, uma ferramenta válida de reposição volêmica intraoperatória, não um vilão absoluto.
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