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O Hidroxietilamido (HES) 6% está de volta como opção de fluidoterapia em grandes cirurgias?

Em paciente bem selecionado e dentro da dose/indicação em rótulo, o HES 6% volta a ser uma ferramenta possível de reposição volêmica intraoperatória, não um vilão absoluto.

Jonas Santana

Jonas Santana

Verificado

Anestesiologista TSA · Especialista em Clínica Médica

O Hidroxietilamido (HES) 6% está de volta como opção de fluidoterapia em grandes cirurgias?

Em paciente bem selecionado e dentro da dose/indicação em rótulo, o HES 6% volta a ser uma ferramenta possível de reposição volêmica intraoperatória, não um "vilão absoluto".

Key takeaways#

Por que o tema ficou "sensível"

  • O Hidroxietilamido (HES) 6% saiu do centro da fluidoterapia depois de estudos em sepse/UTI com altos volumes por vários dias (muitas vezes com formulações antigas), associados a LRA, mais TSR e sinais de pior desfecho.

O que a EMA apontou como lacuna

  • A EMA restringiu o uso em pacientes críticos e sépticos e apontou uma lacuna: faltavam dados robustos e de longo prazo em pacientes cirúrgicos.

O que o PHOENICS foi desenhado para responder

  • O PHOENICS foi desenhado com a EMA para responder: em cirurgia abdominal maior eletiva, ASA II–III, sem sepse e sem doença renal relevante, o HES 6% (130/0,4) em solução balanceada é tão seguro quanto cristalóide?

O que o estudo encontrou e como isso se traduz

  • No PHOENICS, o HES foi não inferior ao cristalóide para função renal, complicações maiores + mortalidade até 90 dias e mortalidade até 1 ano.
  • O HES se associou a menor sobrecarga hídrica e, em análise pós hoc, menor necessidade de vasopressor/inotrópico, sem sinal robusto de piora renal quando usado conforme a bula (até 30 mL/kg/24h).
  • Moral prática: em paciente bem selecionado e dentro da dose/indicação em rótulo, o HES 6% volta a ser uma ferramenta possível de reposição volêmica intraoperatória, não um "vilão absoluto".

Insights sobre o estudo PHOENICS#

Por que o HES 6% virou um tema "sensível" na anestesia?#

Por muitos anos, o hidroxietilamido (HES) 6% foi uma opção de reposição volêmica intraoperatória: efeito expansor rápido, menor volume total infundido e boa estabilidade hemodinâmica.

Isso mudou quando surgiram os grandes estudos em pacientes sépticos, usando volumes altos de HES por vários dias, muitas vezes com formulações mais antigas, HES 10% (200/0.5) em soro fisiológico.

Esses trabalhos mostraram:

  • Maior incidência de lesão renal aguda (LRA)
  • Aumento da necessidade de terapia renal substitutiva
  • Sinais de pior desfecho em UTI

Com base nisso, a EMA (European Medicines Agency) restringiu fortemente o uso de HES em pacientes críticos e sépticos, e apontou uma lacuna importante: faltavam dados robustos e de longo prazo em pacientes cirúrgicos.

Meta-análises mais recentes em contexto cirúrgico sugeriam que o HES 6% (130/0,4), usado intraoperatoriamente, não aumentava LRA nem mortalidade em comparação a cristalóides, mas a maioria dos estudos eram pequenos e subdimensionados. Faltava um ensaio clínico que pudesse realmente resolver a dúvida. É exatamente aí que entra o PHOENICS.

O que foi o PHOENICS?#

O estudo PHOENICS ("Prospective, randomised, controlled, double-blind, multicenter, multinational study on the safety and efficacy of 6% HES solution versus an electrolyte solution in elective abdominal surgery") foi um ensaio clínico fase IV, desenhado em conjunto com a EMA, para responder à pergunta:

Usar HES 6% (130/0.4) no perioperatório de cirurgia abdominal maior, em pacientes sem sepse nem doença renal, é tão seguro quanto usar apenas cristalóide?

PHOENICS: desenho do estudo#

ItemDescrição
Tiporandomizado, duplo-cego, controlado, multicêntrico
Centros53 hospitais em 10 países europeus
Randomizados2289 pacientes
Pacientes tratados1958 pacientes (977 HES, 981 cristalóide)
Faixa etária40–85 anos, ASA II–III
Cirurgiaeletiva abdominal com expectativa de perda sanguínea ≥ 500 mL
Exclusões importantessepse, queimados, LRA prévia ou doença renal crônica relevante, insuficiência cardíaca grave, coagulopatia importante, TCE, pacientes criticamente enfermos.

Intervenção e comparador#

Grupo HES

  • HES 6% (130/0,4) em solução balanceada (Volulyte), até 30 mL/kg nas primeiras 24 horas (principalmente intraoperatório).

Grupo controle

  • Mesma solução eletrolítica balanceada, porém sem amido (cristalóide puro).

O que foi permitido em ambos os grupos

  • Todos podiam receber cristalóides "de manutenção" conforme rotina local.

Como a reposição volêmica foi guiada

  • A reposição volêmica foi guiada por pressão arterial média (PAM) e em parte dos casos, parâmetros hemodinâmicos avançados (PPV, SV, SVV etc.).

Robustez metodológica#

O PHOENICS foi descrito como:

  • Maior estudo já realizado, randomizado e duplo-cego, comparando HES vs cristalóide em cirurgia maior.
  • Desfechos renais avaliados com cistatina C (eGFR CKD-EPI), dosada em laboratório central.
  • Seguimento até 90 dias para complicações maiores e 1 ano para mortalidade e função renal (RRT).
  • Análise estatística pré-especificada, sem análises interinas que mudassem o tamanho amostral.
  • Monitorização por Data Safety Monitoring Board independente.

Em termos de desenho e tamanho, é um estudo "peso-pesado" para responder a questão de segurança renal do HES no contexto cirúrgico.

Principais resultados: o que o PHOENICS encontrou?#

1) Função renal no pós-operatório precoce#

Desfecho primário

Mudança da eGFR (baseada em cistatina C) do pré-operatório até o menor valor nos primeiros 3 dias pós-operatórios.

  • HES: queda média de –3,4 ± 17,7 mL/min/1,73m²
  • Cristalóide: queda média de –1,0 ± 17,1 mL/min/1,73m²

O estudo foi desenhado para testar não inferioridade com margem de 8,1 mL/min/1,73m² e o HES foi não inferior ao cristalóide (p < 0,001 para não inferioridade).

Outros achados renais no estudo

  • Curvas de creatinina e de eGFR (cistatina C) praticamente sobrepostas entre os grupos até o dia 90.

  • Classificação de LRA pelos critérios RIFLE/AKIN semelhante entre grupos.

  • Necessidade de terapia renal substitutiva (RRT) muito baixa e sem diferença:

    • Pós-operatório inicial: 0,9% (HES) vs 1,0% (cristalóide)
    • Até 1 ano: 1,0% vs 1,3%

Em resumo, o texto conclui: nenhum sinal de toxicidade renal atribuível ao HES dentro do uso conforme a bula.

2) Complicações maiores e mortalidade#

Desfecho secundário principal

Composto de mortalidade + complicações pós-operatórias maiores até o dia 90.

  • Ocorreu em 35% dos pacientes em ambos os grupos.
  • Diferença de risco: 0,63% (IC 95% –3,83 a 5,09) e não inferioridade confirmada.

Mortalidade

  • Até 90 dias: 3% em cada grupo.

  • Até 1 ano:

    • 8,6% no grupo HES
    • 10,1% no grupo cristalóide
    • Sem diferença estatisticamente significativa.

Novamente, o texto destaca: nenhum sinal de aumento de mortalidade com HES.

3) Hemodinâmica, balanço hídrico e vasopressores#

Entre indução anestésica e a manhã do primeiro dia pós-operatório:

Volume total de fluidos

  • HES: 4,8 ± 2,6 L
  • Cristalóide: 5,1 ± 2,7 L

Débito urinário

  • Semelhante em ambos os grupos (~2,6 L).

Balanço hídrico líquido

  • HES: +0,6 ± 2,9 L
  • Cristalóide: +1,2 ± 2,7 L
  • Interpretação do texto: HES associado a menor sobrecarga líquida.

Estabilidade hemodinâmica

  • Queda de PAM menor com HES (–14 ± 18 mmHg) do que com cristalóide (–16 ± 19 mmHg).

Em análise pós hoc, menos pacientes precisaram de vasopressores/inotrópicos no grupo HES:

  • 26% vs 35% (p < 0,0001).

O texto resume esta seção como: HES 6% (130/0,4) entregou melhor suporte hemodinâmico com menos volume e menos vasopressor, sem pagar o preço de piora renal.

4) Segurança global e coagulação#

  • Taxa de eventos adversos semelhante (≈71–72% em ambos, como esperado em cirurgia maior).
  • Eventos adversos graves: ~30% em cada grupo.
  • Reações adversas relacionadas à droga: 5% em ambos; o evento mais frequente foi LRA, 4% em cada grupo.
  • Não houve sinal robusto de maior sangramento ou coagulopatia clinicamente relevante com o uso de HES 130/0.4 6% nas doses estudadas.

Tabela de resultados: HES vs cristalóide (valores do PHOENICS)#

DomínioHESCristalóideLeitura do estudo (como descrita no texto)
Desfecho primário renal (queda média eGFR por cistatina C)–3,4 ± 17,7 mL/min/1,73m²–1,0 ± 17,1 mL/min/1,73m²não inferioridade com margem 8,1 mL/min/1,73m²; p < 0,001 para não inferioridade
RRT pós-operatório inicial0,9%1,0%sem diferença
RRT até 1 ano1,0%1,3%sem diferença
Composto mortalidade + complicações maiores até 90 dias35%35%diferença de risco 0,63% (IC 95% –3,83 a 5,09); não inferioridade confirmada
Mortalidade até 90 dias3%3%sem aumento de mortalidade com HES
Mortalidade até 1 ano8,6%10,1%sem diferença estatisticamente significativa
Volume total de fluidos (indução até manhã do D1 pós-op)4,8 ± 2,6 L5,1 ± 2,7 Lmenor volume com HES
Débito urinário~2,6 L~2,6 Lsemelhante
Balanço hídrico líquido+0,6 ± 2,9 L+1,2 ± 2,7 Lmenor sobrecarga hídrica com HES
Queda de PAM–14 ± 18 mmHg–16 ± 19 mmHgqueda menor com HES
Vasopressores/inotrópicos (pós hoc)26%35%menos necessidade no grupo HES; p < 0,0001
Eventos adversos≈71–72%≈71–72%semelhante
Eventos adversos graves~30%~30%semelhante
Reações adversas relacionadas à droga5%5%semelhante; LRA 4% em cada grupo

O que isso muda para o anestesiologista na prática?#

Em que paciente o HES 6% parece uma opção segura?#

Com base no PHOENICS, o perfil de paciente em que o HES 6% (130/0.4) pode ser considerado, quando usado de acordo com a bula, é:

  • Cirurgia eletiva abdominal de grande porte
  • ASA II–III
  • Sem sepse, choque séptico ou necessidade de UTI prévia
  • Sem LRA prévia ou doença renal avançada
  • Sem contraindicações formais ao HES (queimaduras extensas, TCE, coagulopatia grave etc.)
  • Perda sanguínea moderada/alta, com necessidade de reposição volêmica rápida.

Para esse grupo, o texto destaca:

  • Função renal: HES 6% (130/0,4) é não inferior ao cristalóide nos desfechos renais de curto e longo prazo.
  • Desfechos clínicos maiores (complicações + mortalidade): também não inferior.
  • Hemodinâmica: potencialmente mais estável, com menos necessidade de vasopressores e menor balanço hídrico positivo.

Como usar na vida real?#

Pontos práticos

  • Respeite a bula:

    • Dose máxima 30 mL/kg nas primeiras 24 h
    • Preferencialmente concentrado no intraoperatório.
  • Integre o HES a uma estratégia individualizada de fluidoterapia, idealmente guiada por parâmetros dinâmicos (PPV, SVV, SV e DC) quando disponíveis.

  • Usando HES para reposição volêmica rápida em episódios de hipotensão associados a hipovolemia, não como manutenção.

Onde não usar HES (como descrito no texto)

  • Sepse ou choque séptico
  • Pacientes criticamente enfermos em UTI
  • Doença renal moderada/grave ou pacientes em TSR
  • Queimados, TCE, sangramento intracraniano.

Checklist rápido: quando considerar e quando evitar HES 6%#

SituaçãoO que o texto descreve
Quando considerarCirurgia eletiva abdominal de grande porte; ASA II–III; sem sepse/choque séptico; sem LRA prévia ou doença renal avançada; sem contraindicações formais (queimaduras extensas, TCE, coagulopatia grave etc.); perda sanguínea moderada/alta, com necessidade de reposição volêmica rápida.
Como limitar o usoRespeitar 30 mL/kg nas primeiras 24 h, preferencialmente concentrado no intraoperatório.
Como integrar na estratégiaEstratégia individualizada de fluidoterapia, idealmente guiada por parâmetros dinâmicos (PPV, SVV, SV e DC) quando disponíveis.
O que evitarSepse/choque séptico; paciente criticamente enfermo em UTI; doença renal moderada/grave ou TSR; queimados, TCE, sangramento intracraniano.
O que não fazerUsar HES como manutenção.

Conclusão#

Concluindo, para o anestesiologista o HES 6% (130/0,4) volta a ser, em pacientes bem selecionados e dentro da dose/indicação em rótulo, uma ferramenta válida de reposição volêmica intraoperatória, não um vilão absoluto.

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Jonas Santana

Jonas Santana

Médico Anestesiologista com Título Superior em Anestesiologia (TSA) pela Sociedade Brasileira de Anestesiologia. Especialista em Clínica Médica com atuação em Terapia Intensiva. Diretor do Time de Curadoria do AnestCopilot.

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