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Ultrassom gástrico point-of-care: como proceder no caso de um exame inconclusivo

O ultrassom gástrico point-of-care (PoCUS gástrico) ganhou protagonismo no perioperatório, especialmente quando o jejum é incerto e em cenários de potencial esvaziamento gástrico retardado.

Jonas Santana

Jonas Santana

Verificado

Anestesiologista TSA · Especialista em Clínica Médica

Ultrassom gástrico point-of-care: como proceder no caso de um exame inconclusivo

Key takeaways para decidir mais rápido#

Se não dá para ver com confiança, não classifique como "vazio"

  • Se o antro não for visualizado, isso pode significar antro pequeno e vazio; porém, se nem o antro nem seu conteúdo puderem ser identificados com confiança, o estômago não deve ser classificado como vazio.
  • Deve ser descrito como exame inconclusivo, e as decisões devem se apoiar no contexto clínico.

Volte ao básico da anatomia e aquisição da imagem antes de interpretar conteúdo

  • Volte ao básico da anatomia: antro junto ao lobo esquerdo hepático, pâncreas posterior, aorta mais posterior.
  • Confirme estar no "nível da aorta" (evite medir/interpretar quando está no piloro com a VCI posterior).
  • Se aparecer "VCI atrás do antro": deslize levemente à esquerda, use plano transversal e/ou Doppler conforme necessidade.

Descarte imitadores e use padrões de imagem para "vazio vs sólido"

  • Se a imagem parece "antro", mas algo não fecha: descarte imitadores (JGE, cólon, delgado, vesícula) usando topografia, peristalse e padrões de gás.
  • Se a dúvida é vazio vs sólido: procure "padrão de vidro fosco" e aplique zoom + varredura dinâmica direita→esquerda.

Se o antro "some", use janelas alternativas com expectativa realista

  • Se o antro não aparece (gás/curativo/incisão): tente janelas alternativas (transesplênica para o fundo gástrico ou subcostal para corpo), lembrando que são apenas qualitativas.
  • Persistindo incerteza: reporte como inconclusivo e decida pelo contexto clínico, não por uma "suposta" normalidade.

Por que esse tema importa no perioperatório#

O ultrassom gástrico point-of-care (PoCUS gástrico) ganhou protagonismo no perioperatório, especialmente quando o jejum é incerto e em cenários de potencial esvaziamento gástrico retardado (por exemplo, uso crescente de agonistas de GLP-1).

Ainda assim, uma fração não desprezível dos exames (2% a 5%) termina com achados indeterminados, geralmente por limitações de janela/acústica, anatomia complexa, gás intestinal e dificuldades interpretativas.

O artigo educativo da Regional Anesthesia & Pain Medicine (RAPM) organiza essas "armadilhas" em dois grandes domínios: (1) falhas de aquisição/identificação anatômica e (2) erros de interpretação do conteúdo, além de propor manobras e janelas alternativas quando o antro não é avaliável.

O antro é o alvo padrão, e isso explica parte dos erros#

O antro gástrico é a estrutura recomendada para o PoCUS gástrico por três motivos: é a porção mais reconhecível ao ultrassom, costuma ter menos ar do que corpo/fundo (facilitando ver a circunferência e o conteúdo) e, em decúbito lateral direito (DLD), torna-se a porção mais dependente, com boa correlação entre área seccional (CSA) e volume.

Técnica básica

  • Transdutor curvilíneo de baixa frequência, plano sagital no epigástrio, logo distal ao apêndice xifoide, com o marcador cefálico.
  • O antro aparece adjacente à ponta do lobo esquerdo do fígado, anterior ao pâncreas e no nível da aorta que aparece posterior ao pâncreas e antro.

Variações de forma no estômago vazio (onde muitos se perdem)

  • "Bull's-eye" ou "olho de boi" próximo à borda do lobo esquerdo hepático.
  • Alternativamente pode aparecer como estrutura alongada e plana ("dedo de luva") próxima à borda hepática.
  • Também pode ser visto posterior à parede abdominal anterior e caudal à ponta do fígado.

Duas populações em que a janela "some" com mais frequência

  • Obesidade importante: antro mais posterior por aumento de gordura intraperitoneal.
  • Gestação (3º trimestre): útero grávido desloca o antro superiormente e à direita.

Em ambos, pedir inspiração profunda pode trazer o antro para um plano mais anterior e melhorar a visualização.

Pista anatômica crítica: independentemente da forma, o antro exibe parede multicamadas, incluindo uma camada anecóica espessa correspondente à muscular própria.

Armadilha nº 1: você achou o antro, mas está no nível errado#

Confirmar o antro no nível da aorta é particularmente importante quando:

  • há líquido claro (para medir CSA de forma válida) e
  • o estômago parece vazio (para sustentar a ausência de conteúdo).

Se, em vez da aorta, você vê a veia cava inferior (VCI) posterior ao "antro", a estrutura provavelmente é o piloro/junção gastroduodenal, não a cavidade antral, com risco de subestimar grosseiramente o conteúdo.

Como diferenciar aorta vs VCI (soluções práticas do artigo)

Achado/estratégiaSugere VCISugere aorta
TrajetoTem trajeto intra-hepático evidenteFica diretamente anterior à coluna vertebral (frequentemente visível em pacientes magros)
RespiraçãoVaria com a respiraçãoNão se basear em pulsatilidade isolada
PlanoFica em um plano pouco mais anteriorFica mais posterior
Manobra com a sondaSe você está vendo a VCI, deslize levemente o probe para a esquerda para revelar a aortaSe persistir dúvida, posicione a sonda no plano transversal para ver aorta e VCI na mesma imagem
Atenção com "pulsação"Não use pulsatividade isolada: pulsações transmitidas podem "fingir" pulsatilidade na VCIEm maior profundidade (muita gordura), o Doppler pode ajudar

Armadilha nº 2: estruturas parecidas que simulam o antro#

O artigo enfatiza que a experiência do operador é determinante para evitar falsos positivos, e descreve os principais imitadores.

Principais imitadores do antro e como diferenciar

Estrutura que simulaPor que confundeComo diferenciar do antro (pontos do texto)
Junção gastroesofágica (JGE)Pode estar no nível da VCI e ter parede multicamadasFica mais posterior e mais cefálica, próxima ao diafragma. O antro é mais anterior, junto à borda livre do lobo esquerdo hepático, com pâncreas posterior
Cólon (especialmente em eixo curto)Parede multicamadas e proximidade do fígadoTende a estar mais caudal. Alças colônicas costumam ter ar que obscurece a parede posterior e geralmente não exibem peristalse. Excesso de gás no cólon transverso pode impedir a visualização do antro e contribuir para exames indeterminados
Intestino delgadoPode aparecer arredondado, com conteúdo claro ou mistoPode estar caudal/posterior ao antro. A peristalse positiva ajuda a diferenciar do cólon
Vesícula biliarConteúdo anecóico e proximidade ao fígadoTipicamente à direita, próxima à VCI/veia porta, tem parede fina e não tem a parede multicamadas do estômago. A bile é totalmente anecóica, enquanto o antro costuma ter algum ar na interface mucosa, tornando a mucosa mais hiperecogênica/espessa

Armadilha nº 3: "vazio" vs "sólido" quando há ar intraluminal#

Um dos desafios mais comuns (sobretudo em iniciantes) é diferenciar antro vazio (sem conteúdo líquido/sólido) mas com presença de ar.

O ponto-chave: nem todo ar intraluminal significa sólido; um estômago completamente vazio costuma ter algum ar visível.

Como o ar "engana"

O ar pode aparecer hiperecogênico entre paredes anterior/posterior e gerar artefatos tipo "cauda de cometa", lembrando "linhas-B" do ultrassom pulmonar, obscurecendo a parede posterior.

Padrões que ajudam na interpretação

PadrãoO que costuma ser visívelDescrição do texto
Antro vazioGrande parte da circunferência da parede ainda é visívelApesar de pequena quantidade de ar
Sólido pós-refeiçãoFrequentemente só a parede anterior é vista"Padrão de vidro fosco", com "parede" ampla de artefato por ar obscurecendo o conteúdo e a parede posterior

Manejo de casos indeterminados

  • Zoom para melhorar resolução e discernir material intragástrico.
  • Varredura dinâmica do estômago da direita para a esquerda para identificar a natureza do conteúdo, especialmente quando líquido claro se mistura com sólido.

Quando o antro não aparece: janelas alternativas#

Há cenários em que o antro não é identificável pela abordagem padrão por visualização ruim, como interferência de gás intestinal ou incisão mediana recente com curativos.

Nesses casos, o artigo propõe planos alternativos para avaliar regiões do estômago além do antro.

Limitação central: essas abordagens alternativas fornecem informação qualitativa; não existem modelos de volume validados para elas até o momento.

Janela transesplênica para o fundo gástrico

  • Usa o baço como janela acústica para visualizar o fundo (em íntima relação com o baço).
  • Posição: supino ou leve decúbito lateral direito.
  • Probe curvilíneo de baixa frequência na linha axilar posterior/média esquerda, no 9º-11º espaço intercostal, orientação oblíqua com marcador anterior.
  • A parede gástrica é reconhecida por seu padrão multicamadas; a presença de conteúdo (líquido/sólido) facilita a visualização, enquanto estômago vazio pode ser mais difícil.
  • Útil para identificar sólidos ou conteúdo misto; utilidade para quantificar líquido claro não estabelecida.

Janela subcostal para o corpo gástrico

  • Probe no epigástrio, orientação transversal, levemente à esquerda, marcador para a direita do paciente.
  • Visualiza o corpo do estômago entre o lobo esquerdo hepático (anterior) e o pâncreas (posterior).
  • Pode ser complementar quando há dúvida sobre a natureza do conteúdo (ex.: líquido com partículas sólidas) ou quando o antro não é identificável pela técnica tradicional.
  • Uma limitação prática ressaltada: gás intestinal sobrejacente (especialmente do cólon transverso) pode dificultar a janela do corpo gástrico.

Situações em que o exame pode ser pouco confiável e como reportar com segurança#

O artigo aponta cenários em que o PoCUS gástrico não é recomendado atualmente, como em pacientes com anatomia gástrica alterada (ex.: hérnia hiatal ou cirurgia gástrica prévia).

Ele também comenta dados iniciais de fórmulas ajustadas para paciente submetidos a gastrectomia sleeve, mas enfatiza a necessidade de mais evidência antes de recomendações robustas.

E aqui vai um ponto clínico crítico (e frequentemente negligenciado na prática):

Um "estômago cheio" costuma ser fácil de reconhecer.

Já um antro pequeno/vazio pode ser difícil de achar, especialmente para iniciantes.

Se o antro não for visualizado, isso pode significar antro pequeno e vazio; porém, se nem o antro nem seu conteúdo puderem ser identificados com confiança, o estômago não deve ser classificado como vazio. Deve ser descrito como exame inconclusivo, e as decisões devem se apoiar no contexto clínico.

Um algoritmo de resolução de problemas em 90 segundos#

  • Volte ao básico da anatomia: antro junto ao lobo esquerdo hepático, pâncreas posterior, aorta mais posterior.
  • Confirme estar no "nível da aorta" (evite medir/interpretar quando está no piloro com a VCI posterior).
  • Se aparecer "VCI atrás do antro": deslize levemente à esquerda, use plano transversal e/ou Doppler conforme necessidade.
  • Se a imagem parece "antro", mas algo não fecha: descarte imitadores (JGE, cólon, delgado, vesícula) usando topografia, peristalse e padrões de gás.
  • Se a dúvida é vazio vs sólido: procure "padrão de vidro fosco" e aplique zoom + varredura dinâmica direita→esquerda.
  • Se o antro não aparece (gás/curativo/incisão): tente janelas alternativas (transesplênica para o fundo gástrico ou subcostal para corpo), lembrando que são apenas qualitativas.
  • Persistindo incerteza: reporte como inconclusivo e decida pelo contexto clínico, não por uma "suposta" normalidade.

Curva de aprendizado e padronização#

O artigo reforça que dominar o PoCUS gástrico é um processo gradual, combinando aquisição e interpretação.

Após treinamento e supervisão adequados, anestesiologistas podem alcançar ~95% de sucesso em avaliação qualitativa após cerca de 33 exames.

Diretrizes canadenses sugerem ≥20 exames completos supervisionados, e o painel de especialistas da ASRA recomenda ≥30 estudos supervisionados realizados e interpretados.

Onde o AnestCopilot entra#

Se precisar revisar sobre as referências anatômicas e as fórmulas de cálculo do volume gástrico, o Anestcopilot é a ferramenta confiável para esta tarefa.

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Jonas Santana

Jonas Santana

Médico Anestesiologista com Título Superior em Anestesiologia (TSA) pela Sociedade Brasileira de Anestesiologia. Especialista em Clínica Médica com atuação em Terapia Intensiva. Diretor do Time de Curadoria do AnestCopilot.

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