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Pré-condicionamento isquêmico remoto (RIPC) em cirurgias não cardíacas: o que o PRINCE Trial mostrou

O PRINCE Trial, grande, multinacional e duplo-cego, não encontrou redução de lesão miocárdica pós-operatória (MINS) nem de desfechos clínicos relevantes em 30 dias.

Jonas Santana

Jonas Santana

Verificado

Anestesiologista TSA · Especialista em Clínica Médica

Pré-condicionamento isquêmico remoto (RIPC) em cirurgias não cardíacas: o que o PRINCE Trial mostrou

O PRINCE Trial, grande, multinacional e duplo-cego, não encontrou redução de lesão miocárdica pós-operatória (MINS) nem de desfechos clínicos relevantes em 30 dias.

Key takeaways#

Conceito e por que virou promessa

  • RIPC (pré-condicionamento isquêmico remoto) é uma estratégia simples: ciclos curtos de isquemia/reperfusão em um membro para tentar "proteger" órgãos vitais, especialmente o miocárdio, contra isquemia perioperatória.

O que existia antes do PRINCE

  • Antes do PRINCE, havia >70 ensaios randomizados em cirurgia não cardíaca e meta-análises sugerindo benefício, mas com muitas limitações (tamanho pequeno, vieses, pouca cegagem e possível interferência do propofol).

O que o PRINCE mostrou e o que isso implica

  • O PRINCE Trial, grande, multinacional e duplo-cego, não encontrou redução de lesão miocárdica pós-operatória (MINS) nem de desfechos clínicos relevantes em 30 dias.
  • Houve sinais de dano/efeitos colaterais: mais petequias no membro do manguito e mais readmissão hospitalar não planejada em 30 dias no grupo RIPC.
  • A ideia de "fazer porque é barato e não invasivo" perde força: não há benefício comprovado e há possíveis efeitos adversos.

O que é RIPC (pré-condicionamento isquêmico remoto)?#

O conceito de pré-condicionamento isquêmico remoto (RIPC) se baseia em pequenos episódios de isquemia em um membro (braço ou perna), capazes de liberar mediadores humorais que poderiam "proteger" órgãos vitais, em especial o miocárdio, contra episódios de isquemia no intra e pós-operatório.

Em termos práticos: é uma intervenção que parece "simples demais para não tentar". E é exatamente por isso que ela precisava de um teste grande e robusto.

Por que estudar RIPC em cirurgia não cardíaca?#

Porque o contexto é enorme e o problema é frequente.

  • Todos os anos são realizadas aproximadamente 300 milhões de cirurgias no mundo todo.
  • Mesmo com tecnologia, a morbimortalidade segue alta, influenciada por idade avançada, múltiplas comorbidades e fragilidade.
  • A lesão miocárdica pós-operatória (MINS), caracterizada por aumento de troponina após a cirurgia, ocorre em cerca de 22% dos pacientes em cirurgias maiores, muitas vezes sem sintomas, e se associa a maior mortalidade precoce e tardia.

Daí o apelo do RIPC: uma intervenção barata, não invasiva, com potencial (teórico) de mudar desfechos relevantes.

O que sabíamos antes do PRINCE Trial?#

Havia sinais animadores em modelos animais.

Em angioplastia coronariana e em alguns cenários cardíacos, também apareceram resultados promissores.

Na cirurgia não cardíaca, o entusiasmo cresceu rápido:

  • >70 ensaios randomizados de RIPC já tinham sido publicados em pacientes cirúrgicos não cardíacos.
  • Meta-análises sugeriam redução de troponina, eventos cardiovasculares e até mortalidade e AVC.
  • Em 2017, uma conferência com 500 clínicos de 61 países listou o RIPC como uma das intervenções perioperatórias mais promissoras para reduzir complicações.

O "porém" que ficava de pé

  • a maioria dos estudos era pequena e single-center,
  • com vieses, poucos estudos cegos e fragilidade estatística alta,
  • além de um potencial "vilão" recorrente: o propofol, que pode atenuar a resposta do pré-condicionamento.

Faltava um grande ensaio multinacional, duplo-cego, com desenho robusto, para responder a pergunta que importa: isso funciona no mundo real?

PRINCE Trial: a pergunta que o estudo tentou responder#

A pergunta foi direta:

Em pacientes de alto risco, submetidos a cirurgia não cardíaca sob anestesia geral, aplicar RIPC antes da cirurgia reduz a taxa de lesão miocárdica pós-operatória?

E, como bônus, avaliaria também se o RIPC reduziria:

  • IAM, AVC, injúria renal aguda, necessidade de UTI, tempo de internação e mortalidade em 30 dias.

Quem entrou no PRINCE?#

  • N = 1.213 pacientes
  • 25 hospitais, em 8 países, 3 continentes
  • Recrutamento entre 2015 e 2024

Critérios principais

  • > 50 anos
  • cirurgia não cardíaca de risco intermediário ou alto, com anestesia geral
  • uso de antiagregante plaquetário no pré-operatório (como indicador de risco cardiovascular aumentado)

Perfil clínico típico

  • muitos com ASA ≥ 3,
  • hipertensos,
  • muitos fumantes ou ex-fumantes.

Randomização e cegamento#

  • Randomização 1:1 para:

    • RIPC "de verdade"
    • RIPC "sham" (placebo)
  • Duplo-cego: pacientes, anestesiologistas, cirurgiões, equipe e avaliadores de desfecho não sabiam qual intervenção era real.

  • A execução ficava com um membro da pesquisa não envolvido no cuidado, mantendo o cegamento.

Como o RIPC foi aplicado no PRINCE?#

Após indução da anestesia geral:

  • Manguito de PA no braço ou perna.

Protocolo no grupo RIPC

  • 3 ciclos de:

    • 5 min de isquemia (manguito a 200 mmHg)
    • 5 min de reperfusão (manguito desinflado)

Protocolo no grupo sham

  • tudo igual, mas o manguito não era inflado de verdade (válvula aberta para simular o procedimento)

Detalhe crucial: propofol proibido

  • Propofol foi proibido para indução e manutenção.
  • Isso foi exigência do protocolo, justamente porque há evidências de que o propofol pode bloquear os efeitos protetores do RIPC.

O restante (fármacos, técnica de manutenção e manejo hemodinâmico) ficou a critério do anestesiologista: desenho pragmático.

O que foi medido?#

Desfecho primário

  • Lesão miocárdica pós-operatória (MINS): qualquer troponina acima do percentil 99 do limite superior de referência, nos primeiros 3 dias.

Desfechos secundários

  • IAM em 30 dias
  • AVC em 30 dias
  • Lesão renal aguda (KDIGO) em 7 dias
  • Necessidade de UTI
  • Tempo de internação
  • Mortalidade por todas as causas em 30 dias

A amostra foi calculada para detectar redução absoluta de 7% na incidência de lesão miocárdica, com poder de 80%.

Amostragem final

  • 2.318 pacientes recrutados
  • 1.217 incluídos
  • 1.213 analisados (599 RIPC, 614 sham)

PRINCE Trial em números#

ItemDetalhe
População analisada1.213 pacientes (599 RIPC, 614 sham)
Centros e alcance25 hospitais, 8 países, 3 continentes
Período de recrutamento2015 a 2024
Critérios principais> 50 anos, cirurgia não cardíaca de risco intermediário ou alto com anestesia geral, uso de antiagregante plaquetário no pré-op
Protocolo RIPC3 ciclos: 5 min isquemia a 200 mmHg + 5 min reperfusão
PropofolProibido na indução e manutenção
Troponina pós-op95% com troponina coletada nos primeiros 3 dias
Definição de MINSTroponina acima do percentil 99 do limite superior de referência, nos primeiros 3 dias

Resultados do PRINCE Trial#

Desfecho primário: troponina (MINS)

  • Lesão miocárdica pós-operatória:

    • RIPC: 38,0% (215/566)
    • Sham: 37,4% (223/596)
    • RR = 1,02 (IC 95% 0,88-1,18; p = 0,84)

Tradução clínica: nenhuma diferença, nem tendência de benefício.

As análises per-protocol, as-treated e diversas subanálises chegaram ao mesmo resultado.

Subgrupo exploratório (incômodo)

  • Pacientes que receberam RIPC na perna tiveram mais lesão miocárdica do que o grupo sham.

Desfechos secundários

  • IAM em 30 dias: 1,5% (RIPC) vs 2,6% (sham)
  • AVC: raro, sem diferença
  • Lesão renal aguda em 7 dias: 2,8% vs 2,6%
  • Necessidade de UTI: 28,8% vs 26,4%
  • Tempo de internação: mediana 5 vs 5 dias
  • Mortalidade em 30 dias: 1,7% vs 1,3%

Também não houve diferença em troponina >5x o limite (cutoff associado a piores desfechos em outras coortes).

Resultados e segurança: RIPC vs sham#

DomínioResultadoRIPCShamMedida
PrimárioMINS (troponina)38,0% (215/566)37,4% (223/596)RR = 1,02 (IC 95% 0,88-1,18; p = 0,84)
SecundárioIAM em 30 dias1,5%2,6%Sem diferença significativa
SecundárioAVC em 30 diasraroraroSem diferença
SecundárioLesão renal aguda (KDIGO) em 7 dias2,8%2,6%Sem diferença significativa
SecundárioNecessidade de UTI28,8%26,4%Sem diferença significativa
SecundárioTempo de internação (mediana)5 dias5 diasSem diferença
SecundárioMortalidade em 30 dias1,7%1,3%Sem diferença significativa
BiomarcadorTroponina >5x limiteSem diferençaSem diferençaSem diferença
SegurançaPetequias no membro do manguito1,7%0,2%RR 10,2; p = 0,01
SegurançaReadmissão não planejada em 30 dias6,0%3,5%RR 1,74 (IC 95% 1,02-2,99)

Segurança: o "não faz mal" caiu por terra#

No geral, o RIPC foi bem tolerado, mas ocorreram:

  • Petequias no membro do manguito:

    • 1,7% (RIPC) vs 0,2% (sham) - RR 10,2; p = 0,01
  • Readmissão hospitalar não planejada em 30 dias:

    • 6,0% (RIPC) vs 3,5% (sham) - RR 1,74 (IC 95% 1,02-2,99)

Ou seja: a ideia de que o RIPC seria uma intervenção "sem dano" e com provável benefício perdeu sustentação.

O PRINCE é um estudo robusto?#

Pontos fortes

  • Maior RCT de RIPC em cirurgia não cardíaca até hoje (1.213 pacientes)
  • Multicêntrico, multinacional, três continentes
  • Duplo-cego, com sham bem estruturado
  • Procedimento padronizado: 3 ciclos de 5 min a 200 mmHg
  • 95% com troponina coletada nos primeiros 3 dias
  • Evitou propofol, potencial fator de confusão relevante

Limitações

  • Não mediu troponina pré-operatória
  • Não mediu biomarcadores de lesão cerebral ou pulmonar
  • População mais parecida com países europeus de alta renda; extrapolação exige cuidado
  • RIPC aplicado após indução e imediatamente antes da cirurgia; não testou RIPC mais precoce (ex.: 24h antes)

Para levar para casa: o que muda na prática#

  1. PRINCE é o maior RCT sobre RIPC em cirurgia não cardíaca até hoje: 1.213 pacientes, 25 hospitais, 8 países, duplo-cego e sham controlado.
  2. RIPC NÃO reduziu MINS (troponina), nem IAM, nem AVC, nem IRA, nem uso de UTI, nem mortalidade em 30 dias.
  3. Houve mais petequias no membro e mais readmissão hospitalar não planejada em 30 dias no grupo RIPC.
  4. A tese do "vamos fazer porque não custa nada" perde força: não há benefício comprovado e há possíveis efeitos colaterais.

Linhas de pesquisa futuras podem explorar:

  • RIPC mais precoce (24h antes),
  • outros protocolos (4 ciclos, diferentes pressões),
  • populações específicas (subgrupos ainda mais graves),
  • outros desfechos (delirium, função renal/cerebral etc.).

Mas isso é campo de estudo, não de rotina clínica.

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Jonas Santana

Jonas Santana

Médico Anestesiologista com Título Superior em Anestesiologia (TSA) pela Sociedade Brasileira de Anestesiologia. Especialista em Clínica Médica com atuação em Terapia Intensiva. Diretor do Time de Curadoria do AnestCopilot.

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