O PRINCE Trial, grande, multinacional e duplo-cego, não encontrou redução de lesão miocárdica pós-operatória (MINS) nem de desfechos clínicos relevantes em 30 dias.
Key takeaways#
Conceito e por que virou promessa
- RIPC (pré-condicionamento isquêmico remoto) é uma estratégia simples: ciclos curtos de isquemia/reperfusão em um membro para tentar "proteger" órgãos vitais, especialmente o miocárdio, contra isquemia perioperatória.
O que existia antes do PRINCE
- Antes do PRINCE, havia >70 ensaios randomizados em cirurgia não cardíaca e meta-análises sugerindo benefício, mas com muitas limitações (tamanho pequeno, vieses, pouca cegagem e possível interferência do propofol).
O que o PRINCE mostrou e o que isso implica
- O PRINCE Trial, grande, multinacional e duplo-cego, não encontrou redução de lesão miocárdica pós-operatória (MINS) nem de desfechos clínicos relevantes em 30 dias.
- Houve sinais de dano/efeitos colaterais: mais petequias no membro do manguito e mais readmissão hospitalar não planejada em 30 dias no grupo RIPC.
- A ideia de "fazer porque é barato e não invasivo" perde força: não há benefício comprovado e há possíveis efeitos adversos.
O que é RIPC (pré-condicionamento isquêmico remoto)?#
O conceito de pré-condicionamento isquêmico remoto (RIPC) se baseia em pequenos episódios de isquemia em um membro (braço ou perna), capazes de liberar mediadores humorais que poderiam "proteger" órgãos vitais, em especial o miocárdio, contra episódios de isquemia no intra e pós-operatório.
Em termos práticos: é uma intervenção que parece "simples demais para não tentar". E é exatamente por isso que ela precisava de um teste grande e robusto.
Por que estudar RIPC em cirurgia não cardíaca?#
Porque o contexto é enorme e o problema é frequente.
- Todos os anos são realizadas aproximadamente 300 milhões de cirurgias no mundo todo.
- Mesmo com tecnologia, a morbimortalidade segue alta, influenciada por idade avançada, múltiplas comorbidades e fragilidade.
- A lesão miocárdica pós-operatória (MINS), caracterizada por aumento de troponina após a cirurgia, ocorre em cerca de 22% dos pacientes em cirurgias maiores, muitas vezes sem sintomas, e se associa a maior mortalidade precoce e tardia.
Daí o apelo do RIPC: uma intervenção barata, não invasiva, com potencial (teórico) de mudar desfechos relevantes.
O que sabíamos antes do PRINCE Trial?#
Havia sinais animadores em modelos animais.
Em angioplastia coronariana e em alguns cenários cardíacos, também apareceram resultados promissores.
Na cirurgia não cardíaca, o entusiasmo cresceu rápido:
- >70 ensaios randomizados de RIPC já tinham sido publicados em pacientes cirúrgicos não cardíacos.
- Meta-análises sugeriam redução de troponina, eventos cardiovasculares e até mortalidade e AVC.
- Em 2017, uma conferência com 500 clínicos de 61 países listou o RIPC como uma das intervenções perioperatórias mais promissoras para reduzir complicações.
O "porém" que ficava de pé
- a maioria dos estudos era pequena e single-center,
- com vieses, poucos estudos cegos e fragilidade estatística alta,
- além de um potencial "vilão" recorrente: o propofol, que pode atenuar a resposta do pré-condicionamento.
Faltava um grande ensaio multinacional, duplo-cego, com desenho robusto, para responder a pergunta que importa: isso funciona no mundo real?
PRINCE Trial: a pergunta que o estudo tentou responder#
A pergunta foi direta:
Em pacientes de alto risco, submetidos a cirurgia não cardíaca sob anestesia geral, aplicar RIPC antes da cirurgia reduz a taxa de lesão miocárdica pós-operatória?
E, como bônus, avaliaria também se o RIPC reduziria:
- IAM, AVC, injúria renal aguda, necessidade de UTI, tempo de internação e mortalidade em 30 dias.
Quem entrou no PRINCE?#
- N = 1.213 pacientes
- 25 hospitais, em 8 países, 3 continentes
- Recrutamento entre 2015 e 2024
Critérios principais
- > 50 anos
- cirurgia não cardíaca de risco intermediário ou alto, com anestesia geral
- uso de antiagregante plaquetário no pré-operatório (como indicador de risco cardiovascular aumentado)
Perfil clínico típico
- muitos com ASA ≥ 3,
- hipertensos,
- muitos fumantes ou ex-fumantes.
Randomização e cegamento#
-
Randomização 1:1 para:
- RIPC "de verdade"
- RIPC "sham" (placebo)
-
Duplo-cego: pacientes, anestesiologistas, cirurgiões, equipe e avaliadores de desfecho não sabiam qual intervenção era real.
-
A execução ficava com um membro da pesquisa não envolvido no cuidado, mantendo o cegamento.
Como o RIPC foi aplicado no PRINCE?#
Após indução da anestesia geral:
- Manguito de PA no braço ou perna.
Protocolo no grupo RIPC
-
3 ciclos de:
- 5 min de isquemia (manguito a 200 mmHg)
- 5 min de reperfusão (manguito desinflado)
Protocolo no grupo sham
- tudo igual, mas o manguito não era inflado de verdade (válvula aberta para simular o procedimento)
Detalhe crucial: propofol proibido
- Propofol foi proibido para indução e manutenção.
- Isso foi exigência do protocolo, justamente porque há evidências de que o propofol pode bloquear os efeitos protetores do RIPC.
O restante (fármacos, técnica de manutenção e manejo hemodinâmico) ficou a critério do anestesiologista: desenho pragmático.
O que foi medido?#
Desfecho primário
- Lesão miocárdica pós-operatória (MINS): qualquer troponina acima do percentil 99 do limite superior de referência, nos primeiros 3 dias.
Desfechos secundários
- IAM em 30 dias
- AVC em 30 dias
- Lesão renal aguda (KDIGO) em 7 dias
- Necessidade de UTI
- Tempo de internação
- Mortalidade por todas as causas em 30 dias
A amostra foi calculada para detectar redução absoluta de 7% na incidência de lesão miocárdica, com poder de 80%.
Amostragem final
- 2.318 pacientes recrutados
- 1.217 incluídos
- 1.213 analisados (599 RIPC, 614 sham)
PRINCE Trial em números#
| Item | Detalhe |
|---|---|
| População analisada | 1.213 pacientes (599 RIPC, 614 sham) |
| Centros e alcance | 25 hospitais, 8 países, 3 continentes |
| Período de recrutamento | 2015 a 2024 |
| Critérios principais | > 50 anos, cirurgia não cardíaca de risco intermediário ou alto com anestesia geral, uso de antiagregante plaquetário no pré-op |
| Protocolo RIPC | 3 ciclos: 5 min isquemia a 200 mmHg + 5 min reperfusão |
| Propofol | Proibido na indução e manutenção |
| Troponina pós-op | 95% com troponina coletada nos primeiros 3 dias |
| Definição de MINS | Troponina acima do percentil 99 do limite superior de referência, nos primeiros 3 dias |
Resultados do PRINCE Trial#
Desfecho primário: troponina (MINS)
-
Lesão miocárdica pós-operatória:
- RIPC: 38,0% (215/566)
- Sham: 37,4% (223/596)
- RR = 1,02 (IC 95% 0,88-1,18; p = 0,84)
Tradução clínica: nenhuma diferença, nem tendência de benefício.
As análises per-protocol, as-treated e diversas subanálises chegaram ao mesmo resultado.
Subgrupo exploratório (incômodo)
- Pacientes que receberam RIPC na perna tiveram mais lesão miocárdica do que o grupo sham.
Desfechos secundários
- IAM em 30 dias: 1,5% (RIPC) vs 2,6% (sham)
- AVC: raro, sem diferença
- Lesão renal aguda em 7 dias: 2,8% vs 2,6%
- Necessidade de UTI: 28,8% vs 26,4%
- Tempo de internação: mediana 5 vs 5 dias
- Mortalidade em 30 dias: 1,7% vs 1,3%
Também não houve diferença em troponina >5x o limite (cutoff associado a piores desfechos em outras coortes).
Resultados e segurança: RIPC vs sham#
| Domínio | Resultado | RIPC | Sham | Medida |
|---|---|---|---|---|
| Primário | MINS (troponina) | 38,0% (215/566) | 37,4% (223/596) | RR = 1,02 (IC 95% 0,88-1,18; p = 0,84) |
| Secundário | IAM em 30 dias | 1,5% | 2,6% | Sem diferença significativa |
| Secundário | AVC em 30 dias | raro | raro | Sem diferença |
| Secundário | Lesão renal aguda (KDIGO) em 7 dias | 2,8% | 2,6% | Sem diferença significativa |
| Secundário | Necessidade de UTI | 28,8% | 26,4% | Sem diferença significativa |
| Secundário | Tempo de internação (mediana) | 5 dias | 5 dias | Sem diferença |
| Secundário | Mortalidade em 30 dias | 1,7% | 1,3% | Sem diferença significativa |
| Biomarcador | Troponina >5x limite | Sem diferença | Sem diferença | Sem diferença |
| Segurança | Petequias no membro do manguito | 1,7% | 0,2% | RR 10,2; p = 0,01 |
| Segurança | Readmissão não planejada em 30 dias | 6,0% | 3,5% | RR 1,74 (IC 95% 1,02-2,99) |
Segurança: o "não faz mal" caiu por terra#
No geral, o RIPC foi bem tolerado, mas ocorreram:
-
Petequias no membro do manguito:
- 1,7% (RIPC) vs 0,2% (sham) - RR 10,2; p = 0,01
-
Readmissão hospitalar não planejada em 30 dias:
- 6,0% (RIPC) vs 3,5% (sham) - RR 1,74 (IC 95% 1,02-2,99)
Ou seja: a ideia de que o RIPC seria uma intervenção "sem dano" e com provável benefício perdeu sustentação.
O PRINCE é um estudo robusto?#
Pontos fortes
- Maior RCT de RIPC em cirurgia não cardíaca até hoje (1.213 pacientes)
- Multicêntrico, multinacional, três continentes
- Duplo-cego, com sham bem estruturado
- Procedimento padronizado: 3 ciclos de 5 min a 200 mmHg
- 95% com troponina coletada nos primeiros 3 dias
- Evitou propofol, potencial fator de confusão relevante
Limitações
- Não mediu troponina pré-operatória
- Não mediu biomarcadores de lesão cerebral ou pulmonar
- População mais parecida com países europeus de alta renda; extrapolação exige cuidado
- RIPC aplicado após indução e imediatamente antes da cirurgia; não testou RIPC mais precoce (ex.: 24h antes)
Para levar para casa: o que muda na prática#
- PRINCE é o maior RCT sobre RIPC em cirurgia não cardíaca até hoje: 1.213 pacientes, 25 hospitais, 8 países, duplo-cego e sham controlado.
- RIPC NÃO reduziu MINS (troponina), nem IAM, nem AVC, nem IRA, nem uso de UTI, nem mortalidade em 30 dias.
- Houve mais petequias no membro e mais readmissão hospitalar não planejada em 30 dias no grupo RIPC.
- A tese do "vamos fazer porque não custa nada" perde força: não há benefício comprovado e há possíveis efeitos colaterais.
Linhas de pesquisa futuras podem explorar:
- RIPC mais precoce (24h antes),
- outros protocolos (4 ciclos, diferentes pressões),
- populações específicas (subgrupos ainda mais graves),
- outros desfechos (delirium, função renal/cerebral etc.).
Mas isso é campo de estudo, não de rotina clínica.
Quer transformar evidência perioperatória em decisão mais rápida?#
Quando um tema "promissor" cai num RCT grande (como o PRINCE), a parte difícil não é saber que saiu. É conseguir organizar o impacto disso na sua conduta, sem abrir dezenas de abas, PDFs e discussões soltas.
No ecossistema do AnestCopilot, o Deep Evidence ajuda a revisar literatura e sintetizar achados em diferentes níveis de profundidade, e outras ferramentas podem apoiar o raciocínio perioperatório em situações comuns do dia a dia (sempre como suporte à decisão, sem substituir julgamento clínico).


