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Anestesia na paciente em amamentação: do "pump and dump" ao "sleep and keep"

A paciente pode amamentar ou ordenhar sem descartar o leite assim que estiver acordada e alerta após a anestesia. A grande maioria dos anestésicos e medicamentos utilizados no intraoperatório é compatível com a amamentação.

Jonas Santana

Jonas Santana

Verificado

Anestesiólogo Certificado · Especialista en Medicina Interna

Anestesia na paciente em amamentação: do "pump and dump" ao "sleep and keep"

Anestesia na paciente em amamentação: do "pump and dump" ao "sleep and keep"

"a paciente pode amamentar ou ordenhar sem descartar o leite assim que estiver acordada e alerta após a anestesia."

Key takeaways para decidir mais rápido#

Regra prática do artigo

  • Acordou e está alerta? Pode amamentar/ordenhar sem descartar.

Logística para manter a oferta

  • A oferta de leite depende de remoção: planeje logística para não estourar o maior intervalo habitual; se necessário, considere ordenha intraoperatória.

Analgesia e opioides

  • Analgesia é parte do sucesso do aleitamento: não opioides programados + opioide para resgate; evite codeína, tramadol e doses repetidas de meperidina.

Seleção de fármacos sem "medo automático"

  • Escolha fármacos pela eficácia e compatibilidade, não por medo: a maioria dos medicamentos perioperatórios é compatível com lactação ininterrupta.

Por que abandonar o "pump and dump"#

Ainda é comum que pacientes lactantes recebam orientações para interromper a amamentação e "descartar o leite" após anestesia.

O problema é que essa conduta, quando adotada de forma indiscriminada, cria barreiras desnecessárias ao aleitamento e pode desencadear complicações clínicas.

Uma vez estabelecida a amamentação, a díade mãe-lactente torna-se interdependente e a manutenção da oferta depende primariamente da remoção regular do leite.

A separação e a redução do esvaziamento mamário aumentam o risco de ingurgitamento, mastite e queda da produção de leite.

O impacto prático da interrupção é relevante: menos de 40% das mulheres que interrompem a amamentação conseguem retomar a lactação com sucesso.

De onde vêm as recomendações e qual é a regra operacional atual#

O artigo "Anesthesia Care of Lactating Patients", publicado na edição de dezembro de 2025 no periódico "Advances in Anesthesia", aborda as recomendações mais recentes da American Society of Anesthesiologists (ASA), Academy of Breastfeeding Medicine (ABM) e da Association of Anaesthetists sobre amamentação no perioperatório.

A diretriz operacional que resume as recomendações atuais citadas no artigo é: a paciente pode amamentar ou ordenhar sem descartar o leite assim que estiver acordada e alerta após a anestesia.

A grande maioria dos anestésicos e medicamentos utilizados no intraoperatório é compatível com a amamentação.

Atenção deve ser dada às exceções:

  • meperidina
  • tramadol
  • codeína
  • antissépticos com iodo
  • alguns medicamentos cujos estudos são escassos

No lugar do "pump and dump", o texto propõe o mnemônico: "sleep and keep".

1) Fisiologia da lactação: o que importa para o anestesiologista#

A lactação é descrita como um sistema neuroendócrino com dois eixos principais.

Prolactina (produção de leite)

Durante a gestação, níveis elevados de progesterona placentária suprimem o efeito lactogênico da prolactina; após a dequitação placentária, a queda abrupta da progesterona permite que a prolactina inicie e mantenha a produção.

Mais tarde, a secreção de prolactina passa a ser regulada principalmente por dopamina através de feedback negativo.

Implicação prática destacada no artigo:

  • fármacos que aumentam a atividade dopaminérgica (incluindo dopamina e propofol) podem reduzir a oferta de leite
  • antagonistas dopaminérgicos (ex.: metoclopramida) podem aumentar a produção ao remover essa inibição dopaminérgica

Ocitocina (reflexo de ejeção e vínculo)

A ocitocina é liberada com estímulo do mamilo pelo bebê ou pelo uso da bomba para extração do leite, promovendo contração muscular lisa/mioepitelial e associando-se a sensações positivas do vínculo com o bebê.

Colostro → leite de transição → leite maduro

Logo após o parto, os lactócitos estão "mais frouxamente conectados", com maior permeabilidade; nessa fase, produz-se colostro, rico em anticorpos e fatores imunológicos.

À medida que se formam tight junctions, há maior controle da composição do leite.

Essa transição ocorre tipicamente nos primeiros 7-14 dias, com evolução para leite maduro.

2) Farmacologia da amamentação: por que a "concentração no leite" não é sinônimo de risco#

O artigo descreve a passagem dos medicamentos do sangue materno para o leite através de dois mecanismos.

Difusão passiva (transcelular/paracelular)

Depende de tamanho molecular, ligação proteica, concentração plasmática materna (que depende da dose e do volume de distribuição) e lipossolubilidade.

É a mesma lógica que explica por que anestésicos atravessam a barreira hematoencefálica e, potencialmente, também a barreira do lactócito.

Transporte ativo

Pode ocorrer em todas as fases e concentrar fármacos no leite independentemente de tamanho/lipossolubilidade, se houver transportadores específicos.

Fase da lactogênese muda a permeabilidade e a exposição total

No pós-parto precoce (colostro), as junções são mais permeáveis e a composição se aproxima do plasma materno; porém o volume produzido é muito baixo (mililitros por mamada), o que limita a exposição total do lactente.

Com o leite maduro, as tight junctions entre os lactócitos proporcionam um maior controle composicional e tendem a reduzir as concentrações de fármacos no leite; o artigo descreve isso como uma relação "paradoxal" em que maior volume de leite se associa a menor exposição do lactente.

A métrica relevante é a dose relativa no lactente (Relative Infant Dose)

A concentração no leite, isoladamente, não representa risco de exposição.

A dose relativa (comparada à dose materna ajustada ao peso) raramente excede o limiar teórico de 10% para a maioria dos medicamentos; além disso, muitos fármacos têm baixa biodisponibilidade oral, reduzindo a fração absorvida pelo lactente ao mamar.

O artigo também lembra que efeitos tópicos gastrointestinais de drogas não absorvidas podem ocorrer (ex.: desconforto gastrointestinal após antibióticos maternos).

3) Seleção de fármacos por classes#

Regra de decisão simples proposta no artigo

Quando necessário estabelecer um tratamento farmacológico, avalie o tratamento padrão, baseado em evidências, para a condição clínica; depois avalie a compatibilidade com amamentação.

Se houver necessidade, prefira terapias de segunda linha adequadas em vez de migrar automaticamente para alternativas inferiores.

3.1 Anestésicos e sedativos

Princípio central

Os anestésicos (pequenas moléculas lipofílicas) redistribuem-se e são eliminados rapidamente após cessar a administração; a passagem para o leite acompanha o gradiente e cai conforme a concentração plasmática cai.

É um processo bidirecional, e não é necessário esvaziar as mamas para "limpar" medicações; além disso, muitos desses fármacos não são oralmente biodisponíveis para o lactente por via oral.

Risco mínimo com retomada quando a paciente está alerta e orientada

Quando a paciente está suficientemente desperta e orientada, concentrações residuais disponíveis para ingestão pelo lactente são clinicamente insignificantes e representam risco mínimo.

Tabela 1. Anestésicos e sedativos na lactação (segundo o artigo)

CategoriaFármacos / pontos do artigo
Considerados compatíveis com a amamentaçãoPropofol; midazolam; dexmedetomidina; etomidato; anestésicos voláteis; óxido nitroso; lidocaína; bupivacaína; bupivacaína lipossomal
Evidência limitadaCetamina em dose de indução; remimazolam
Recomendado evitarDiazepam

Observações específicas do artigo

  • Voláteis: risco mínimo pela eliminação rápida e baixos níveis plasmáticos na emergência.
  • Cetamina: grande volume de distribuição reduz chance de concentrações preocupantes no leite.
  • Dexmedetomidina: baixa transferência, provavelmente por alta ligação proteica.
  • Propofol: pode, raramente, mudar temporariamente a cor do leite para verde.
  • Anestésicos locais: compatíveis por baixa biodisponibilidade oral e baixa absorção sistêmica quando usados em técnicas regionais.

Benzodiazepínicos: onde mora a cautela

O artigo descreve um perfil de risco relativamente maior por meia-vida prolongada e lipossolubilidade.

Os relatos de sedação do lactente após benzodiazepínicos ocorreram quase exclusivamente quando foram combinados com opioides, sugerindo efeito sinérgico com potencialização de depressão respiratória.

Remimazolam é apresentado como alternativa teórica promissora (metabolismo por esterase, ultracurto), com possível menor transferência e depuração mais rápida do que midazolam, mas sem dados de segurança em lactação disponíveis no momento.

3.2 Analgésicos

Muitas mães evitam analgésicos por medo de prejudicar o bebê; o artigo descreve que esse "sofrimento em silêncio" pode atrapalhar o sucesso da amamentação, pois a dor pode interferir no vínculo, posicionamento, levar ao aumento do estresse/ansiedade e causar potencial impacto na produção.

Estratégia recomendada

Priorizar não opioides como primeira linha e reservar opioides para resgate, limitando riscos e mantendo analgesia adequada.

Paracetamol e AINEs são descritos como seguros, com doses no leite abaixo das doses terapêuticas administradas diretamente a lactentes.

Opioides: o que o artigo destaca

  • Oxicodona: rotulagem atualizada pela FDA; doses orais até 60 mg/dia foram consideradas compatíveis na maioria dos cenários clínicos (limitar a ≤60 mg/dia por acúmulo do metabólito oximorfona).
  • Codeína e tramadol: apesar de reavaliações de casos clássicos, a comunicação de segurança da FDA recomendando evitar em lactantes permanece inalterada.
  • Meperidina: deve ser evitada por gerar normeperidina (meia-vida 15-30 h), com acúmulo, transferência para leite e potencial neuroexcitador em lactentes com depuração hepática imatura. Para tremor pós-anestésico, o artigo sugere alternativas compatíveis: aquecimento cutâneo ativo combinado com cetamina, magnésio, dexmedetomidina ou fentanil, apesar de uma dose única de meperidina parecer segura.

Tabela 2. Analgésicos na lactação (resumo do artigo)

CategoriaFármacos
Compatíveisparacetamol; ibuprofeno; cetorolaco; cetamina em baixa dose; morfina; oxicodona (≤60 mg/dia); hidrocodona; fentanil; opioides neuroaxiais; remifentanil
Evidência limitadahidromorfona
Evitarcodeína; tramadol; meperidina

3.3 Antieméticos

Náuseas e vômitos pós-operatórios são particularmente relevantes porque podem prolongar a recuperação e a internação, reduzir a ingestão oral/hidratação e piorar a experiência, com impacto esperado no plano de lactação; por isso, a profilaxia é considerada prudente.

Tabela 3. Antieméticos na lactação (segundo o artigo)

CategoriaFármacos / observações do artigo
Preferidos/compatíveisOndansetrona: mínima transferência e compatível, sem efeitos conhecidos na produção. Metoclopramida e haloperidol: aumentam prolactina e têm perfis favoráveis; metoclopramida é citada como usada terapeuticamente para aumentar produção. Dexametasona: listada como compatível. Escopolamina: listada como compatível, mas pode impactar produção, devendo-se ponderar risco/benefício. Aprepitanto: dados limitados; peso molecular e alta ligação proteica sugerem risco mínimo.
Evidências limitadasDroperidol
Evitar quando possívelFenotiazinas (prometazina/proclorperazina): podem causar sedação em lactentes sensíveis; não preferidas, embora uso de curto prazo provavelmente não represente ameaça significativa.

3.4 Outros fármacos perioperatórios (pontos úteis)

  • Bloqueadores neuromusculares (NDMRs): apesar da ausência de estudos específicos no leite, rocurônio/vecurônio/cisatracúrio têm redistribuição/eliminações previsíveis e níveis plasmáticos clinicamente insignificantes quando a paciente recupera consciência e pode amamentar.
  • Sugamadex: usado em cesarianas desde 2015 sem efeitos adversos documentados em lactentes; considerado compatível apesar de dados limitados de transferência.
  • Vasoativos (fenilefrina/efedrina/epinefrina/norepinefrina): meia-vida extremamente curta e metabolismo rápido; mesmo traços no leite teriam biodisponibilidade eliminada por primeira passagem. Amamentação pode ser retomada quando a mãe estiver consciente e hemodinamicamente estável.
  • Antissépticos: clorexidina em pele íntegra tem risco mínimo por baixa absorção sistêmica; já preparos iodados merecem cautela porque a glândula mamária expressa o sodium-iodide symporter (NIS), criando via de acúmulo ativo no leite. Quando aplicados em mucosas durante produção de leite maduro, pode haver absorção materna relevante e transferência ao leite, com potencial de exposição excessiva e risco teórico de disfunção tireoidiana no lactente (neonatos são particularmente sensíveis). Preferir alternativas não iodadas quando factível e quando se espera absorção sistêmica.

4) Manejo anestésico na lactante: roteiro pré, intra e pós-operatório#

4.1 Pré-operatório: padronize a avaliação

O artigo recomenda incorporar status de lactação como parte do exame pré-anestésico de rotina em mulheres em idade fértil.

A avaliação deve ser prática e centrada em risco real de interrupção:

  • Objetivos da paciente para o perioperatório e pós-operatório.
  • Saúde atual do lactente.
  • Horário do último esvaziamento mamário e padrão estabelecido (frequência e intervalo máximo).
  • Relevância nutricional do leite na dieta e "cenário de lactação" (se amamentação exclusiva ou complementar a dieta já introduzida).
  • Familiaridade com bomba de extração e disponibilidade do equipamento; algumas pacientes não ordenham rotineiramente e podem precisar de suporte.

Planejamento logístico deve incluir estimativa realista do tempo total de separação (pré → procedimento → recuperação até estar acordada e alerta) e discutir ordenha intraoperatória (por profissional treinada) se a separação puder exceder o maior intervalo habitual entre amamentações.

O artigo também sugere considerar capacidade institucional de suporte à lactação como possível motivo de transferência quando clinicamente pertinente.

4.2 Intraoperatório

Escolha de medicações

Selecionar medicações eficazes e compatíveis seguindo padrão de cuidado; quando houver preocupação de compatibilidade, considerar alternativas terapêuticas apropriadas.

O artigo chama atenção não só para fármacos que podem produzir efeitos no lactente, mas também podem afetar produção (ex.: antieméticos) mesmo sem risco direto ao lactente.

Quando possível, ponderar riscos e benefícios com a paciente.

Ordenha intraoperatória (quando indicar)

A ordenha deve seguir a frequência habitual (mamada direta ou bomba).

Se o tempo desde o pré-operatório até estar acordada e alerta for igual/maior que o maior intervalo habitual, discutir e oferecer ordenha intraoperatória.

A ordenha intraoperatória requer equipe experiente e planejamento de acesso conforme posição cirúrgica; em anestesia geral, o leite ordenhado não é salvo.

Posicionamento, fluidos e recuperação rápida

Evitar pressão sobre mamas Mamas cheias são mais suscetíveis a trauma e podem aumentar risco de mastite; considerar sutiã sem aro se compatível.

Fluidos Meta de euvolemia com necessidade de manutenção discretamente maior (200-500 mL/dia), mas evitar sobrecarga por risco de expansão do "terceiro espaço" no tecido mamário e compressão dos ductos mamários.

Deve-se incentivar líquidos claros até saciar a sede quando apropriado.

Recuperação Como a retomada da amamentação depende sobretudo do estado mental/alerta, deve-se minimizar dor, náusea e necessidade de sedação adicional; analgesia multimodal, profilaxia de náuseas e técnicas regionais devem integrar o plano.

4.3 Pós-operatório: a regra prática e o que implementar

A paciente pode retomar amamentação ou ordenha assim que estiver acordada e alerta; esse estado indica níveis plasmáticos suficientemente reduzidos, correspondendo a transferência mínima ao leite.

É aqui que o artigo consolida o "sleep and keep" em substituição ao "pump and dump".

Além disso, o artigo recomenda apoio individualizado e consistente, incluindo recursos para manutenção da oferta, técnicas de ordenha e facilitação de alojamento conjunto quando apropriado.

Quando o lactente estiver presente no hospital, deve haver um cuidador adulto que não seja a paciente; e cuidadores devem monitorar alterações de comportamento, vigília ou padrão alimentar enquanto a mãe recebe medicações e cuidados.

5) Conclusão: quatro mensagens que mudam conduta#

  • Acordou e está alerta? Pode amamentar/ordenhar sem descartar.
  • A oferta de leite depende de remoção: planeje logística para não estourar o maior intervalo habitual; se necessário, considere ordenha intraoperatória.
  • Analgesia é parte do sucesso do aleitamento: não opioides programados + opioide para resgate; evite codeína, tramadol e doses repetidas de meperidina.
  • Escolha fármacos pela eficácia e compatibilidade, não por medo: a maioria dos medicamentos perioperatórios é compatível com lactação ininterrupta.
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Jonas Santana

Jonas Santana

Médico Anestesiólogo con Título Superior en Anestesiología (TSA) de la Sociedad Brasileña de Anestesiología. Especialista en Medicina Interna con actuación en Terapia Intensiva. Director del Equipo de Curación de AnestCopilot.

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