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B-APNEIC: um substituto do STOP-BANG para rastrear a apneia obstrutiva do sono grave no pré-operatório?

Uma triagem mais objetiva para AOS grave, com menos autorrelato e mais reprodutibilidade.

Jonas Santana

Jonas Santana

Verificado

Anestesiólogo Certificado · Especialista en Medicina Interna

B-APNEIC: um substituto do STOP-BANG para rastrear a apneia obstrutiva do sono grave no pré-operatório?

Uma triagem mais objetiva para AOS grave, com menos "autorrelato" e mais reprodutibilidade.

Key takeaways#

Por que isso importa no perioperatório

  • A apneia obstrutiva do sono (AOS) é frequente no perioperatório e, quando a forma grave passa despercebida, aumenta risco de dessaturação, obstrução de via aérea e eventos respiratórios/cardiovasculares.

O que é o B-APNEIC e como ele "encurta" o STOP-BANG

  • O B-APNEIC simplifica o STOP-BANG em 4 itens, com peso maior para circunferência cervical, e usa ponto de corte ≥ 3 para sugerir maior probabilidade de AOS grave.

O que o estudo sugere sobre desempenho diagnóstico

  • No estudo australiano (clínica do sono), B-APNEIC ≥ 3 teve sensibilidade 84% e VPN 86% para AOS grave (IAH ≥ 30), sugerindo utilidade prática para "excluir AOS grave" quando < 3.
  • Na comparação direta, o B-APNEIC superou o STOP-BANG ≥ 5 em AUROC (0,72 vs 0,66) e Youden index (0,43 vs 0,32).

O que ainda impede virar padrão único no pré-operatório

  • A principal limitação é o viés de seleção (amostra de clínica do sono). O próprio artigo reforça que ainda falta validação em populações cirúrgicas antes de adotar como padrão único no pré-operatório.

Por que a AOS importa tanto no perioperatório?#

A apneia obstrutiva do sono (AOS) deixou de ser um problema exclusivo da medicina do sono há tempo. No perioperatório, ela é um fator de risco importante: aumenta a chance de dessaturação, obstrução de via aérea e eventos adversos respiratórios e cardiovasculares, especialmente quando a forma grave passa despercebida.

E isso é comum. Em populações cirúrgicas, as estimativas de prevalência variam de 24% a 41%, chegando a 70% em pacientes submetidos a cirurgia bariátrica.

O dilema: o padrão-ouro não cabe na triagem de rotina#

O padrão-ouro diagnóstico (polissonografia) é inviável para triagem rotineira no pré-operatório. Por isso, questionários como o STOP-BANG se tornaram muito usados.

Mas as limitações são bem conhecidas:

  • dependência de itens subjetivos, como ronco e sonolência/cansaço diurno;
  • dificuldade de entender o "peso real" de cada variável para predizer gravidade.

É nesse cenário que entra o artigo publicado no periódico Anaesthesia em dezembro de 2025: "Validation and diagnostic performance of the novel B-APNEIC score for predicting severe obstructive sleep apnoea: a cross-sectional study in an Australian population."

Qual a função do score B-APNEIC?#

A proposta do B-APNEIC é "fragmentar e simplificar" o STOP-BANG em 4 itens (com pontuação assimétrica, valorizando circunferência cervical).

ItemPontos
IMC > 35 kg/m²1
Hipertensão arterial1
Circunferência cervical > 40 cm2
Apneias observadas (interrupção/cessação da respiração durante o sono)1

Interpretação: um score ≥ 3 sugere maior probabilidade de AOS grave.

A motivação é clara: reduzir dependência de autorrelato de ronco e cansaço e tornar a triagem mais reprodutível no mundo real.

Desenho do estudo#

ElementoComo foi no estudo
Tipoestudo prospectivo, transversal, em população de clínica do sono (Austrália; Queen Elizabeth Hospital)
Amostra274 participantes > 18 anos (maio/2022 a maio/2024), recrutados de forma consecutiva; com capacidade cognitiva para responder ao questionário. Excluídos pacientes com outras indicações de polissonografia (ex: narcolepsia).
Desfecho primárioAOS grave definida por IAH ≥ 30 eventos/h (critérios AASM - American Academy of Sleep Medicine)
Rigor metodológicoequipe que aplicou o teste índice cega para o resultado da polissonografia e especialistas do sono cegos para o escore
Cálculo amostralbaseado em validar AUROC esperado 0,75; tamanho necessário 265. O estudo incluiu 274.

Principais achados#

Desempenho do B-APNEIC para AOS grave

Na amostra, a prevalência de AOS grave foi 38%. Com B-APNEIC ≥ 3, o estudo encontrou:

  • Sensibilidade 84% (IC95% 75-90)
  • Especificidade ~60% (IC95% 52-67)
  • VPP 56% (IC95% 48-64)
  • VPN 86% (IC95% 78-91)

Leitura direta para o perioperatório: quando o B-APNEIC é < 3, a probabilidade de AOS grave cai bastante (VPN alto). O próprio artigo enfatiza essa utilidade "para excluir AOS grave" e alerta que resultados positivos exigem cautela pela possibilidade de falsos positivos (especificidade moderada).

Comparação com STOP-BANG (ponto de corte ≥ 5)

O B-APNEIC mostrou melhor desempenho global que o STOP-BANG para AOS grave:

MétricaB-APNEICSTOP-BANG (≥ 5)
Sensibilidade84%73%
VPN86%78%
Youden index0,430,32
AUROC0,720,66

Em outras palavras: o B-APNEIC tende a ser um filtro melhor para excluir AOS grave e determinar quem deveria ser encaminhado para um teste de polissonografia.

Robustez e limitações#

Pontos fortes

  • Amostra dimensionada por estimativa de precisão (não apenas conveniência).
  • Referência com polissonografia e definição de gravidade por IAH (padrão amplamente aceito).
  • Cegamento entre teste índice e padrão-ouro.
  • Métricas diagnósticas completas (sensibilidade, especificidade, valores preditivos, Youden, AUROC).

Limitações relevantes para anestesiologia

  • A amostra vem de encaminhados com suspeita de AOS para a clínica do sono, com risco de viés de seleção e menor generalização para triagem em ambulatório pré-operatório.
  • O estudo reforça que ainda é necessária validação em populações cirúrgicas antes de "implementar com segurança" como padrão de triagem perioperatória.
  • O escore foi focado em AOS grave (não avalia desempenho para leve/moderada), com racional explícito de que a associação mais consistente com complicações pós-operatórias está na AOS grave.

Conclusões#

O Score B-APNEIC pode vir a ser um substituto do STOP-BANG como ferramenta objetiva de triagem para AOS grave

  • Se B-APNEIC < 3: o estudo sugere bom desempenho para descartar AOS grave (VPN 86%).
  • Se B-APNEIC ≥ 3: trate como alto risco de AOS grave, mas não como diagnóstico. É necessária a polissonografia (padrão-ouro) para fechar o diagnóstico.

Traduza "alto risco de AOS grave" em decisões perioperatórias concretas

Como o próprio artigo reforça a ligação entre AOS grave não reconhecida e complicações cardiopulmonares perioperatórias, a implicação prática é estratificar risco e modular condutas, por exemplo:

  • planejamento de via aérea e estratégia de sedação/anestesia (evitar "surpresas" por colapso de vias aéreas);
  • analgesia multimodal para reduzir exposição a opioides quando possível;
  • critérios mais conservadores para alta da RPA e maior vigilância em pacientes com suspeita de AOS grave (sobretudo se houver hipoxemia, comorbidades e cirurgia de maior risco);
  • seleção criteriosa de pacientes em regime de "hospital-dia".

Como o B-APNEIC foca em 4 itens, a triagem pode ser mais rápida

O ganho do B-APNEIC é ser mais objetivo; então vale padronizar:

  • medir circunferência cervical de rotina (ela vale 2 pontos e é central no escore);
  • aferição correta de PA;
  • IMC calculado;
  • pergunta dirigida sobre apneias observadas.

Mensagens finais (take-home)#

  • A AOS é frequente no perioperatório e a subnotificação é alta; o rastreio pragmático continua sendo uma necessidade.
  • O B-APNEIC ≥ 3 mostrou sensibilidade alta e VPN alto para AOS grave e superou o STOP-BANG ≥ 5 em AUROC/Youden index nesta validação.
  • Antes de virar padrão único no pré-operatório, o próprio artigo ressalta a necessidade de validação em populações cirúrgicas (como pacientes candidatos a cirurgia bariátrica e cirurgias de vias aéreas). Portanto, o STOP-BANG continua sendo uma opção na triagem pré-operatória.

Um jeito prático de não deixar esse tema virar "mais um PDF"#

Se você usa o pré-operatório como momento de decisão organizada (e não de improviso), vale ter um fluxo para revisar evidência e padronizar triagem. No AnestCopilot, o Deep Evidence ajuda a buscar e resumir artigos como este em linguagem aplicada ao perioperatório, e o restante do ecossistema entra como apoio em decisões do dia a dia (sem substituir julgamento clínico).

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Jonas Santana

Jonas Santana

Médico Anestesiólogo con Título Superior en Anestesiología (TSA) de la Sociedad Brasileña de Anestesiología. Especialista en Medicina Interna con actuación en Terapia Intensiva. Director del Equipo de Curación de AnestCopilot.

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