Uma triagem mais objetiva para AOS grave, com menos "autorrelato" e mais reprodutibilidade.
Key takeaways#
Por que isso importa no perioperatório
- A apneia obstrutiva do sono (AOS) é frequente no perioperatório e, quando a forma grave passa despercebida, aumenta risco de dessaturação, obstrução de via aérea e eventos respiratórios/cardiovasculares.
O que é o B-APNEIC e como ele "encurta" o STOP-BANG
- O B-APNEIC simplifica o STOP-BANG em 4 itens, com peso maior para circunferência cervical, e usa ponto de corte ≥ 3 para sugerir maior probabilidade de AOS grave.
O que o estudo sugere sobre desempenho diagnóstico
- No estudo australiano (clínica do sono), B-APNEIC ≥ 3 teve sensibilidade 84% e VPN 86% para AOS grave (IAH ≥ 30), sugerindo utilidade prática para "excluir AOS grave" quando < 3.
- Na comparação direta, o B-APNEIC superou o STOP-BANG ≥ 5 em AUROC (0,72 vs 0,66) e Youden index (0,43 vs 0,32).
O que ainda impede virar padrão único no pré-operatório
- A principal limitação é o viés de seleção (amostra de clínica do sono). O próprio artigo reforça que ainda falta validação em populações cirúrgicas antes de adotar como padrão único no pré-operatório.
Por que a AOS importa tanto no perioperatório?#
A apneia obstrutiva do sono (AOS) deixou de ser um problema exclusivo da medicina do sono há tempo. No perioperatório, ela é um fator de risco importante: aumenta a chance de dessaturação, obstrução de via aérea e eventos adversos respiratórios e cardiovasculares, especialmente quando a forma grave passa despercebida.
E isso é comum. Em populações cirúrgicas, as estimativas de prevalência variam de 24% a 41%, chegando a 70% em pacientes submetidos a cirurgia bariátrica.
O dilema: o padrão-ouro não cabe na triagem de rotina#
O padrão-ouro diagnóstico (polissonografia) é inviável para triagem rotineira no pré-operatório. Por isso, questionários como o STOP-BANG se tornaram muito usados.
Mas as limitações são bem conhecidas:
- dependência de itens subjetivos, como ronco e sonolência/cansaço diurno;
- dificuldade de entender o "peso real" de cada variável para predizer gravidade.
É nesse cenário que entra o artigo publicado no periódico Anaesthesia em dezembro de 2025: "Validation and diagnostic performance of the novel B-APNEIC score for predicting severe obstructive sleep apnoea: a cross-sectional study in an Australian population."
Qual a função do score B-APNEIC?#
A proposta do B-APNEIC é "fragmentar e simplificar" o STOP-BANG em 4 itens (com pontuação assimétrica, valorizando circunferência cervical).
| Item | Pontos |
|---|---|
| IMC > 35 kg/m² | 1 |
| Hipertensão arterial | 1 |
| Circunferência cervical > 40 cm | 2 |
| Apneias observadas (interrupção/cessação da respiração durante o sono) | 1 |
Interpretação: um score ≥ 3 sugere maior probabilidade de AOS grave.
A motivação é clara: reduzir dependência de autorrelato de ronco e cansaço e tornar a triagem mais reprodutível no mundo real.
Desenho do estudo#
| Elemento | Como foi no estudo |
|---|---|
| Tipo | estudo prospectivo, transversal, em população de clínica do sono (Austrália; Queen Elizabeth Hospital) |
| Amostra | 274 participantes > 18 anos (maio/2022 a maio/2024), recrutados de forma consecutiva; com capacidade cognitiva para responder ao questionário. Excluídos pacientes com outras indicações de polissonografia (ex: narcolepsia). |
| Desfecho primário | AOS grave definida por IAH ≥ 30 eventos/h (critérios AASM - American Academy of Sleep Medicine) |
| Rigor metodológico | equipe que aplicou o teste índice cega para o resultado da polissonografia e especialistas do sono cegos para o escore |
| Cálculo amostral | baseado em validar AUROC esperado 0,75; tamanho necessário 265. O estudo incluiu 274. |
Principais achados#
Desempenho do B-APNEIC para AOS grave
Na amostra, a prevalência de AOS grave foi 38%. Com B-APNEIC ≥ 3, o estudo encontrou:
- Sensibilidade 84% (IC95% 75-90)
- Especificidade ~60% (IC95% 52-67)
- VPP 56% (IC95% 48-64)
- VPN 86% (IC95% 78-91)
Leitura direta para o perioperatório: quando o B-APNEIC é < 3, a probabilidade de AOS grave cai bastante (VPN alto). O próprio artigo enfatiza essa utilidade "para excluir AOS grave" e alerta que resultados positivos exigem cautela pela possibilidade de falsos positivos (especificidade moderada).
Comparação com STOP-BANG (ponto de corte ≥ 5)
O B-APNEIC mostrou melhor desempenho global que o STOP-BANG para AOS grave:
| Métrica | B-APNEIC | STOP-BANG (≥ 5) |
|---|---|---|
| Sensibilidade | 84% | 73% |
| VPN | 86% | 78% |
| Youden index | 0,43 | 0,32 |
| AUROC | 0,72 | 0,66 |
Em outras palavras: o B-APNEIC tende a ser um filtro melhor para excluir AOS grave e determinar quem deveria ser encaminhado para um teste de polissonografia.
Robustez e limitações#
Pontos fortes
- Amostra dimensionada por estimativa de precisão (não apenas conveniência).
- Referência com polissonografia e definição de gravidade por IAH (padrão amplamente aceito).
- Cegamento entre teste índice e padrão-ouro.
- Métricas diagnósticas completas (sensibilidade, especificidade, valores preditivos, Youden, AUROC).
Limitações relevantes para anestesiologia
- A amostra vem de encaminhados com suspeita de AOS para a clínica do sono, com risco de viés de seleção e menor generalização para triagem em ambulatório pré-operatório.
- O estudo reforça que ainda é necessária validação em populações cirúrgicas antes de "implementar com segurança" como padrão de triagem perioperatória.
- O escore foi focado em AOS grave (não avalia desempenho para leve/moderada), com racional explícito de que a associação mais consistente com complicações pós-operatórias está na AOS grave.
Conclusões#
O Score B-APNEIC pode vir a ser um substituto do STOP-BANG como ferramenta objetiva de triagem para AOS grave
- Se B-APNEIC < 3: o estudo sugere bom desempenho para descartar AOS grave (VPN 86%).
- Se B-APNEIC ≥ 3: trate como alto risco de AOS grave, mas não como diagnóstico. É necessária a polissonografia (padrão-ouro) para fechar o diagnóstico.
Traduza "alto risco de AOS grave" em decisões perioperatórias concretas
Como o próprio artigo reforça a ligação entre AOS grave não reconhecida e complicações cardiopulmonares perioperatórias, a implicação prática é estratificar risco e modular condutas, por exemplo:
- planejamento de via aérea e estratégia de sedação/anestesia (evitar "surpresas" por colapso de vias aéreas);
- analgesia multimodal para reduzir exposição a opioides quando possível;
- critérios mais conservadores para alta da RPA e maior vigilância em pacientes com suspeita de AOS grave (sobretudo se houver hipoxemia, comorbidades e cirurgia de maior risco);
- seleção criteriosa de pacientes em regime de "hospital-dia".
Como o B-APNEIC foca em 4 itens, a triagem pode ser mais rápida
O ganho do B-APNEIC é ser mais objetivo; então vale padronizar:
- medir circunferência cervical de rotina (ela vale 2 pontos e é central no escore);
- aferição correta de PA;
- IMC calculado;
- pergunta dirigida sobre apneias observadas.
Mensagens finais (take-home)#
- A AOS é frequente no perioperatório e a subnotificação é alta; o rastreio pragmático continua sendo uma necessidade.
- O B-APNEIC ≥ 3 mostrou sensibilidade alta e VPN alto para AOS grave e superou o STOP-BANG ≥ 5 em AUROC/Youden index nesta validação.
- Antes de virar padrão único no pré-operatório, o próprio artigo ressalta a necessidade de validação em populações cirúrgicas (como pacientes candidatos a cirurgia bariátrica e cirurgias de vias aéreas). Portanto, o STOP-BANG continua sendo uma opção na triagem pré-operatória.
Um jeito prático de não deixar esse tema virar "mais um PDF"#
Se você usa o pré-operatório como momento de decisão organizada (e não de improviso), vale ter um fluxo para revisar evidência e padronizar triagem. No AnestCopilot, o Deep Evidence ajuda a buscar e resumir artigos como este em linguagem aplicada ao perioperatório, e o restante do ecossistema entra como apoio em decisões do dia a dia (sem substituir julgamento clínico).


